Madrid, à semelhança das outras cidades conterrâneas, convida a sua gente para as calles - tudo o que mexe está na rua. Há comércio por todo o lado, o movimento é constante, e se a situação é esta em tempo frio e de mini-férias, imagine-se no quotidiano.
Madrid é, ao contrário de outras capitais de peso, discretamente turística – estão longe de proliferar as típicas ofertas que se vêem de olhos fechados em tantos outros sítios e que, reconheça-se, são eficientemente propagandeados e explorados. Os turistas misturam-se no meio da multidão, tornando-se apenas mais uma peça do puzzle cheio de estilo que constitui a cidade. Parece que o mais importante mesmo é dar aos residentes e visitantes lojas de roupa de todas as marcas, cafés distintos, restaurantes para todos os gostos - do 8 ao 80 no preço – quem quiser o 8 pode jantar no Museo del Jamón, escolhendo por exemplo o do Paseo del Prado diante do homónimo Museo del Prado de Velasquez e não só; quem quiser o 80 ainda é mais fácil encontrar.
Madrid dá um verdadeiro sentido à popular expressão “Porta-te mal mas com nível” pois este é algo que se respira avenida acima, avenida abaixo, rua à esquerda, rua à direita. E isso foi o que fiz durante três dias pelo que, no último, veio mesmo a calhar o banho de imersão envolto em espuma proporcionado pelas excelentes condições do hotel (não se pense que foi num de 80, estava bem mais próximo do 8, mas há já algum tempo que ultrapassei o pequeno trauma que me impunham em miúdo de que nuestros hermanos não recebiam bem, que davam más condições higiénicas e alimentares aos visitantes – se assim fosse como é que conseguiam estar permanentemente no top dos países mais visitados?).
Por casualidade, assisti no hotel à transmissão da mensagem de Ano Novo do Presidente da República, a nossa que está quase a fazer um século de existência, e registei as suas palavras nomeadamente as justamente feitas aos pequenos comerciantes e agricultores. Quanto aos primeiros acho que já expressei bem a minha opinião, só é pena que o Presidente, quando ainda estava longe de Belém e as suas paragens eram mais para os lados de São Bento, tenha dado o seu contributo para a tendência das últimas décadas de afastar as pessoas das ruas e oferecerem-lhes a “comodidade” dos espaçosos, práticos, térmicos e afastados centros comerciais. Quase não há cidades, grandes, médias ou pequenas, neste cantinho que não tenham o seu. Esse engodo é o maior desprezo que lhes poderiam fazer, a factura virá mais tarde mas, para não variar, já não estarão presentes os responsáveis pela encomenda. Parece a história da desertificação do interior do país, também abordada no discurso à nação, é muito interessante reflectir sobre isso mas basta olhar às recentes medidas governamentais e… sem palavras!
Quanto aos segundos, os agricultores, apenas tenho a lembrar algo que ouvi quando era ainda um ser imberbe: “a agricultura deve ser a base da economia de qualquer país”. Numa hipotética e completamente indesejável situação de crise extrema, o que restará à Humanidade para sobreviver? O essencial, a comida! E que virá de onde, caso a cadeia global de engrenagens que nos fazem ostentar a vida que levamos actualmente emperre? Da terra, pois claro!
Ora, a paisagem que uma viagem de carro até Madrid proporciona também coloca a nu diferenças significativas na matéria entre nós por cá e eles por lá. Até podem dizer que a economia espanhola está também em abrandamento, que caminha igualmente para a recessão, mas a verdade é que, por exemplo, o salário mínimo deles é aproximadamente 50% superior ao nosso. Se as economias pararem, essa diferença não esbaterá nem um cêntimo e acrescente-se que, ganham mais e desembolsam o mesmo ou ainda menos pelo que consomem. Tudo isto não é ser apátrida, é ser realista.
Resta o optimismo, já que o novo ano ainda não saiu do adro!
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