sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Coffee break

Inspirado pelo blog da Mª José, venho aqui fazer uma espécie de ode prosaica a um momento que faz parte do quotidiano da maioria das pessoas, em especial do povo lusitano. Talvez por ser um momento banalizado acabam por não vislumbrar tudo o que o rodeia mas uma observação mais atenta dará para sentir que aquele momento desperta e agita bem os nossos 5 sentidos. Chávena na mão, o aroma em vapor que se liberta e inebria a atmosfera, cresce água na boca de todo um corpo em ansiedade para que o líquido esteja na temperatura certa e logo a seguir entrar em êxtase interior saciado pelo sabor cremoso… é incrível como um simples café tem um poder tão forte para despertar todo este plaisir. Já percebi que insinuei apenas 3 dos sentidos mas o resto vem logo a seguir quando se volta a pousar a chávena e os sons das conversas das mesas vizinhas, a música ambiente, o ritual das etapas que o barman impõe à máquina para mais uma tiragem, o motor dos carros que passam na rua… todos estes sons vão subindo de forma crescente e límpida aos ouvidos assim como mais transparentes são as imagens que os olhos captam, seja a decoração das paredes de um café urbano, sejam as pessoas em movimento na praça central da vila, seja o movimento das cartas ou das pedras de dominó a sair das mãos ásperas marcadas por uma vida de trabalho de velhos de uma aldeia pacata, seja o infinito azul que se estende desde a esplanada junto ao mar ou o verde e castanho que se eleva serra acima.

Pergunta quem não é adepto do café o porquê de estar a ler estas palavras. Resposta simples, o prazer é o mesmo levando à boca um chocolate quente ou capuccino, um chá quente ou frio, um copo de vinho ou cerveja, uma simples água com ou sem gás, um refrigerante ou sumo natural, um batido ou um jarro de sangria,… e todo este prazer sozinho ou partilhado com um cigarro entre os dedos, um jornal aberto, capítulo de um livro ou com alguém batendo um papo…

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Saudades do sol e não só...

Olho para o fundo do ambiente de trabalho do meu computador e vejo-me a esbracejar para a objectiva da máquina fotográfica, sentado na água irresistível para a pele que nem dá sinal de si tal a absorção em que se encontra, não tanto para os olhos que reclamam os elevados níveis de sal mas que as papilas gustativas já provaram indiferentes ao que pode acontecer ao nível de tensão. Encontro-me a uns bons 50 metros da areia enxuta, com salpicos cor-de-rosa que o mesmo sal lhe confere. Os muitos tons de azul fazem a sua escala, apenas interrompida por pequenas ilhas que cercam a praia e por sua vez cercadas pelos iates que vão estacionando…
Estou na Playa de Ses Illetes onde não é possível resistir à tentação de apregoar a perfeição do Planeta Azul. Já lá vão alguns meses, agora tenho o frio a espreitar pela janela e a provocar-me um arrepio de saudade pelos dias lá passados e uma súplica pelo próximo sol quente, algures escondido atrás das nuvens que passam a correr sobre o céu de quem circula na rua; é a altura ideal para escrever algo sobre duas ilhas Baleares fantásticas: Ibiza y Formentera.
À saída do avião, a brisa quente e seca que sopra, depois do arrebatamento das cores do mar vistas do ar, é a prova final de que estamos algures perdidos no Mediterrâneo. Com a chegada ao quarto do hotel, uma sensação desperta para uma corrida até à varanda onde a batida da música que vem do outro lado da rua invade qualquer um e passa a controlar todos os movimentos - é o som único das Ibiza Summer Sessions. Avista-se malta jovem mexendo-se ao ritmo certo, de forma bem ousada vão fazendo o jogo da sedução e facilmente se verifica que a ilha serve intentos tão díspares como passar uns dias cheios de programas bem românticos ou conhecer pessoas novas e dar largas à imaginação, começando por beber um copo de cada vez nos muitos bares com propostas bem diversificadas e acabando as noites encharcados pela espuma que algumas discotecas oferecem. Ibiza não é um sítio, é um estado de espírito. As suas praias também contribuem para esse sentimento, mas nesse domínio a vizinha Formentera constitui-se como uma pequena mas valiosíssima pérola!

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Como é que eu poderia esquecer o Porto...

Este texto é especialmente dedicado ao meu amigo Milton que insinuou um dia destes a minha traição à cidade do Porto quando me ouviu dizer algo assim parecido “Lisboa é única no país porque tem sempre algo de novo para surpreender”. Vou mostrar-te que não é verdade e que continuo apaixonado pela muy nobre e invicta.
A mesma tem muitas portas de entrada, as mais encantadoras são oferecidas a quem vem de sul pelas várias pontes que cruzam a grande altura o Douro que mantém o seu bailado desconcertante por entre encostas curvas. A minha sugestão só podia ser a do Carlos Tê que escreve assim para a voz de Rui Veloso “Quem vem e atravessa o rio, junto à serra do Pilar, vê um velho casario, que se estende até ao mar”. Pode-se fazê-lo de metro mas o melhor mesmo é a pé para dar tempo suficiente às cores da Ribeira invadirem os cinco sentidos, ali imóveis no meio do tabuleiro superior da D. Luís I, qualquer um tende a suster a respiração para se sentir transportado para aquele quadro pintado por gente simples, com pronúncia do Norte, dialogando sonoramente entre peças de roupa agitadas ao vento, suspensas em arames presos a varandas de casas encavalitadas, umas quase beijando o rio que de quando em vez lhes deixa a sua marca, outras galgando a colina até à Sé. Ao observador mais atento impressiona a quantidade de igrejas que a custo irrompem com as suas torres por entre aqueles cogumelos pintados em aguarelas de mil cores.
E se a ideia do visitante é percorrer a monumentalidade, o Porto não desilude, podendo circular pelo pátio exterior da Sé, em torno do pelourinho, invadir o espaço interior, descer à estação de comboios de São Bento e deixar cair os queixos perante as gravuras de azulejo que revestem as suas paredes, subir a Avenida dos Aliados sempre com os olhos postos nas fachadas e cabeços dos edifícios que a ladeiam, flectir à direita e seguir com os ouvidos o rasto das apregoadoras do Bolhão, ou se preferir outras compras, percorrer a Santa Catarina mesmo que só para sentir a atmosfera dos passos cruzados da multidão, com o valor acrescentado que esta época proporciona com o cheiro da castanha assada e eis que se chega à praça da Batalha, rodeada por salas históricas de cinema e teatro, não esquecendo o Coliseu que do alto da sua rua observa o Rivoli com o qual a partilha.
Mas uma jornada destas já com algum peso nos músculos das pernas não deixa o viajante seguir em frente quando passa pelo Majestic sem ceder à tentação do convite das suas cadeiras para o cimbalino. Fazendo o percurso de uma parábola com concavidade positivamente voltada para o céu, chega-se à Torre dos Clérigos e o esforço das centenas de degraus é refrescantemente compensado não por uma laranjada servida na varanda mas por tudo o que está sob os pés nos 360º que um movimento de lenta rotação permite alcançar. Na descida é de lamentar a ausência do Jardim Romântico que outrora se estendia desde o sopé da torre e que um dia se tornou presa fácil da ridiculamente poderosa e cruel mão humana. Nas imediações resiste um parque com árvores acompanhadas de umas peças de arte em ferro curiosas e, num dos seus limites, mais uma igreja de azulejo vestida, como é bem característico em muitas que se distribuem pelo burgo. Mas quem está naquele local não pode afastar-se sem uma incursão na livraria Lello & Irmão onde os livros trazem um sabor diferente mas isso já é algo que aqui não se pode descrever, o melhor é entrar… e porque não um salto ao Piolho onde enquanto se degusta um petisco se pode encostar a orelha à parede para tentar escutar murmúrios de planos e conspirações de outros tempos ou apenas para brindar com um fino ao espírito académico.
O tempo passa e o melhor é descer por ruelas enviesadas que contornam edifícios que se esmagam mutuamente, desembocando no largo com honras feitas pelo Palácio da Bolsa com o seu magnífico salão árabe embora triste e eternamente associado ao facto de ter sido construído de forma perversa que quase estrangulou a existência da Igreja de São Francisco na altura em que os seus moradores, da ordem homónima, receberam o veredicto de saída, restando à mesma uma curta vista para o rio, e por isso mesmo, passando muitas vezes despercebida. Mas, fazendo jus ao título de maravilha candidata, é de visita obrigatória. Quem desce estas ruas pode escolher a noite de São João, desde que esteja preparado para o amasso e para as inevitáveis marteladas e snifadelas de alho-porro.
Voltando lá acima porque não vaguear nos jardins do Palácio de Cristal? E em pouco mais de quase nada chega-se à mais famosa rotunda da cidade em cujo centro se avista no alto um leão com as garras afiadas sobre as penas da águia, não retirando aqui quaisquer ilações pois estou numa posição neutral em relação a esta disputa. Numa das saídas destaca-se a Casa da Música, edifício polémico pelos atrasos no timing de construção e (a)normais derrapagens financeiras infelizmente comum a muitas obras públicas mas de inegável singularidade arquitectónica, que se junta ao (já que se meteu a colherada no futebol) Estádio do Dragão no que concerne a beleza dos novos padrões de construção. Tenho esta opinião totalmente isenta pois se cá no íntimo não gostasse da obra, era o primeiro a maldizer tal como o faço sempre quando as coisas não andam bem pela naçon azul. Polémicas à parte fazemos bem em descer a Avenida, e como é a maior que eu conheço no país, o melhor é parar a meio para lamber o beiço ao devorar a francesinha do Cufra. Bem sei que os gostos não se discutem mas esta faz parte do top de qualquer apreciador. Não esqueci as tripas mas pode-se deixá-las para o fim da volta ao regressar à Ribeira.
Retomando a mesma avenida, vale bem a pena fazer um desvio à esquerda para uma entrada na Casa e um mergulho nos Jardins de Serralves. De repente sente-se que a presença momentânea numa cidade talvez não esteja a passar de um sonho, até ser interrompido pela passagem a alguns pés de distância de um avião a aproximar-se do seu poiso. Antes do Castelo do Queijo, agredido pelas ondas do Atlântico que as inventa para chamar a atenção, impõe-se um passeio no Parque da Cidade para abrir os pulmões e retemperar energias.
E dando a tão pedida atenção a esse mar egocêntrico ao circular pela marginal da Foz, o passeio continua bem agradável e quando se dá conta já não é mar mas o seu enlace com o rio. A bicicleta é o meio ideal para seguir caminho mas uma viagem de eléctrico dá uma expressão pitoresca ao que falta palmilhar. Surge então a Ribeira com os rabelos e outros tipos de barcos sem passado atracados no cais a oferecerem o cruzeiro das pontes, uma forma diferente de se ver a cidade.
Outros sítios emblemáticos ficam por referir, entre palácios, museus, ruas, jardins, lagos, pátios habitados por pombos, estátuas de cavaleiros, de poetas, carteiros ou ardinas… mas neste momento o melhor mesmo é atravessar para Gaia onde as caves esperam com um copo de vinho do Porto para brindar e, já se sabe, quanto mais velho melhor…
Agora Milton, vou pensar se te perdoo, não a acusação com que eu começo este texto, mas o facto de teres depreciado tanto o papel da minha diva Meryl Streep no “Mamma Mia!”, onde até deu um novo encanto à minha música preferida dos Abba “The Winner Takes It All” quando a interpretou com voz rouca e nostálgica, emoldurada por indescritíveis paisagens gregas, a mesma nostalgia que eu tenho ao escrever sobre o Porto a partir das vistas do meu quarto sobre Lisboa. Talvez o que te tenha ferido seja o facto de os Abba serem aquela banda que deixou uma marca, uma herança, talvez a despedir-se do seu público no momento em que nasceste mas logo ali te ficou no ouvido e cresceste numa adoração também crescente às suas músicas e, sendo para ti obras-primas, ninguém deve ousar proferi-las em vão. No meio de toda esta confusão sobra-me o discernimento para te agradecer o contágio que me passaste ao longo daqueles anos de convivência quase diária de Aveiro para crescer em mim uma admiração por estes 4 suecos que passaram que nem um tornado por este mundo, deixando uma indelével e irracional marca, desaparecendo de seguida quiçá para passar o tempo em jogatinas de sueca a 4.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Mensagem que não sai da gaveta de quem a pensa

Há algumas semanas atrás, por um pequeno acaso, vi-me envolvido no 1º Encontro de Escritores Moçambicanos na Diáspora e ouvi o organizador do evento, professor e poeta Delmar Gonçalves, lamentar a falta de correspondência entre os escritores moçambicanos nomeadamente os que se afastaram geograficamente da mãe pátria, contrastando com o que se passava “antigamente” em que, até de forma clandestina, se trocavam ideias à distância.
Penso que essa preocupação ilustra bem a maior lacuna da sociedade actual – a indiferença. É impressionante a forma como o crescente aparecimento de vias de comunicação simples e rápidas traduz-se de forma inversamente proporcional nos contactos humanos. A atmosfera dos nossos dias apresenta-se estranhamente cinzenta… vazia… ausente… inerte… engolida pelo efervescer do dito progresso que o futuro dirá se se tratou ou não de mero desenvolvimento de fachada e não gelou por completo o interior de cada um na sua relação com o mundo, com os outros e, no limite, consigo próprio. Até dá a ideia que a ausência de esforço em fazermos chegar o nosso pensamento numa fracção de segundo a alguém que se encontre nos nossos antípodas banalizou e, por conseguinte, desvalorizou o relacionamento humano. Sente-se que havia mais vontade em comunicar quando se tratava de um cabo de tormentas fazer chegar a mensagem ao destinatário e não é necessário recuar ao tempo do pombo-correio ou dos sinais de fumo.

sábado, 10 de janeiro de 2009

La Movida

Umas semanas antes do Natal abordei aqui a situação do comércio tradicional que anda pelas ruas, toda a gente sabe, mas infelizmente temos que acrescentar a palavra 'amargura' para a frase ficar completa nos tempos que correm. Ganha assim sentido fazer aqui referência ao local da minha passagem para o novo ano, a capital da nossa vizinha España, as badaladas foram contadas na Puerta del Sol, uma verdadeira Piccadilly Circus à espanhola.
Madrid, à semelhança das outras cidades conterrâneas, convida a sua gente para as calles - tudo o que mexe está na rua. Há comércio por todo o lado, o movimento é constante, e se a situação é esta em tempo frio e de mini-férias, imagine-se no quotidiano.
Madrid é, ao contrário de outras capitais de peso, discretamente turística – estão longe de proliferar as típicas ofertas que se vêem de olhos fechados em tantos outros sítios e que, reconheça-se, são eficientemente propagandeados e explorados. Os turistas misturam-se no meio da multidão, tornando-se apenas mais uma peça do puzzle cheio de estilo que constitui a cidade. Parece que o mais importante mesmo é dar aos residentes e visitantes lojas de roupa de todas as marcas, cafés distintos, restaurantes para todos os gostos - do 8 ao 80 no preço – quem quiser o 8 pode jantar no Museo del Jamón, escolhendo por exemplo o do Paseo del Prado diante do homónimo Museo del Prado de Velasquez e não só; quem quiser o 80 ainda é mais fácil encontrar.
Madrid dá um verdadeiro sentido à popular expressão “Porta-te mal mas com nível” pois este é algo que se respira avenida acima, avenida abaixo, rua à esquerda, rua à direita. E isso foi o que fiz durante três dias pelo que, no último, veio mesmo a calhar o banho de imersão envolto em espuma proporcionado pelas excelentes condições do hotel (não se pense que foi num de 80, estava bem mais próximo do 8, mas há já algum tempo que ultrapassei o pequeno trauma que me impunham em miúdo de que nuestros hermanos não recebiam bem, que davam más condições higiénicas e alimentares aos visitantes – se assim fosse como é que conseguiam estar permanentemente no top dos países mais visitados?).
Claro que dificilmente se perdoa uma visita à actual sem se visitar a outrora capital do reino, a visigótica Toletum ou a Toledo cristã, árabe e judaica, abraçada pelo Tejo que também é nosso e que ali, com tamanho terreno ainda por trilhar, já corre de forma tão enérgica. É um bilhete-postal, quem quiser fazer parte dele tem mesmo que seguir as pisadas de Dom Quixote como nos conta Cervantes.
É de destacar um pormenor inteligente para a preservação da cidade histórica e das pernas de quem entra pela porta da encosta mais acentuada, a oferta de escadas rolantes; para o automóvel muito espaço cá em baixo.

Por casualidade, assisti no hotel à transmissão da mensagem de Ano Novo do Presidente da República, a nossa que está quase a fazer um século de existência, e registei as suas palavras nomeadamente as justamente feitas aos pequenos comerciantes e agricultores. Quanto aos primeiros acho que já expressei bem a minha opinião, só é pena que o Presidente, quando ainda estava longe de Belém e as suas paragens eram mais para os lados de São Bento, tenha dado o seu contributo para a tendência das últimas décadas de afastar as pessoas das ruas e oferecerem-lhes a “comodidade” dos espaçosos, práticos, térmicos e afastados centros comerciais. Quase não há cidades, grandes, médias ou pequenas, neste cantinho que não tenham o seu. Esse engodo é o maior desprezo que lhes poderiam fazer, a factura virá mais tarde mas, para não variar, já não estarão presentes os responsáveis pela encomenda. Parece a história da desertificação do interior do país, também abordada no discurso à nação, é muito interessante reflectir sobre isso mas basta olhar às recentes medidas governamentais e… sem palavras!
Quanto aos segundos, os agricultores, apenas tenho a lembrar algo que ouvi quando era ainda um ser imberbe: “a agricultura deve ser a base da economia de qualquer país”. Numa hipotética e completamente indesejável situação de crise extrema, o que restará à Humanidade para sobreviver? O essencial, a comida! E que virá de onde, caso a cadeia global de engrenagens que nos fazem ostentar a vida que levamos actualmente emperre? Da terra, pois claro!
Ora, a paisagem que uma viagem de carro até Madrid proporciona também coloca a nu diferenças significativas na matéria entre nós por cá e eles por lá. Até podem dizer que a economia espanhola está também em abrandamento, que caminha igualmente para a recessão, mas a verdade é que, por exemplo, o salário mínimo deles é aproximadamente 50% superior ao nosso. Se as economias pararem, essa diferença não esbaterá nem um cêntimo e acrescente-se que, ganham mais e desembolsam o mesmo ou ainda menos pelo que consomem. Tudo isto não é ser apátrida, é ser realista.
Resta o optimismo, já que o novo ano ainda não saiu do adro!

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Balanço e prognóstico

Caminhamos a páginas velozes para o epílogo do livro 2008, os balanços são inevitáveis, as previsões para o futuro uma tentação. Por aqui deixo uma palavra de apreço por todos quantos fazem o mundo caminhar, principalmente os que o fazem manter-se em órbita e com o equilíbrio necessário para seguir o rumo da paz e da justiça. Não posso deixar de abraçar calorosamente com as minhas palavras os mais velhos, fonte inesgotável de sapiência e sensatez que me fazem querer continuar a crescer, a preencher o espaço interior com que nasci, mais um pouco a cada diálogo, a cada olhar, a cada sorriso destes sábios anciãos. Ter a consciência do quão são desprezados e mal tratados tantas vezes não devia deixar indiferente até mesmo quem não lhes reconhece o devido valor. Na faixa etária extrema temos as crianças e para elas ficam aqui umas quantas palavras de carinho e esperança de que segurem bem esta grande bola onde vieram parar, a protejam e a façam girar como ela tanto gosta – doucement pelo meio de constelações de estrelas que cintilam como reflexos dos seus mares ainda cristalinos. E cresçam com a determinação de ajudar a estrela, símbolo de quem vive a quadra natalícia, a brilhar na vida daqueles que infelizmente tantas vezes não a encontram e entram em cada novo ano sem o optimismo que poderia ser a alavanca para tudo se tornar diferente. Mas para que isto aconteça são os adultos de Hoje que têm o papel principal nas mãos e não podem construir uma Sociedade que permite que uma criança rejeitada por um pai à nascença lhe vá parar contrariada às mãos após alguns anos só por leis cegas, por capricho ou porque sim. Esta é uma entre tantas manchas que não permitem que o Natal seja verdadeiro na sua plena acepção nem permitem que um novo ano comece com a certeza que será melhor e que todos irão remar no mesmo sentido. O futuro chama por todos mas mostra as suas exigências e só com a satisfação das mesmas nos dará a tal certeza que queremos ver ecoada na mente. Não posso terminar sem manifestar a minha consideração pelas pessoas que têm transmitido a sua crítica a este espaço de expressão, mesmo que nem todos aceitem os meus pontos de vista e ainda bem que assim é. A pluralidade de ideias é a luz ao fundo do túnel; neste momento talvez a salvação passe por uma autêntica brainstorming. Senão temos mesmo que levar com a indesejada visita do lobo mau!

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Aquela a quem um dia chamei confidente

O meu primeiro emprego pós-licenciatura não conseguiu cativar-me para um mergulho nas entranhas mais obscuras da informática ao contrário de colegas que eu lá tinha que pareciam deleitar-se com toda aquela atmosfera. E o regozijo era tão grande que um deles, talvez em ritual de celebração, tinha como lanche preferido uma sandes dupla de chocolate, que não era mais que um pão aberto com outro pão dentro e um chocolate bounty no interior. Quando passava por mim, o cumprimento da praxe “Tudo?!”, e eu lá respondia mudando o ponto (de interrogação ou exclamação, nunca percebi qual dos dois) para um simples ponto final ou até umas reticências, consoante o estado de espírito… A ideia até deveria ser eu sentir-me lisonjeado pela reacção das pessoas quando sabiam onde eu trabalhava mas a verdade é que, ao passar na entrada e acenar ao porteiro de serviço a minha consciência apercebia-se que era o último momento de alegria do dia até à hora de saída, em que o aceno levava uma carga extra de alívio a acrescentar à felicidade.
Provavelmente estou a exagerar mas quando um simples aceno ao porteiro (não querendo de forma alguma desprestigiar o cargo) constitui uma marca na memória de um passado já com uma certa distância, alguma coisa há-de significar. Ainda se fosse uma porteira com rasgado sorriso mas nem era o caso. Distância essa multiplicada por tudo de bom que já tive o privilégio de fazer depois dessa etapa. E como é óptima a terapia oferecida pelas coisas boas que nos acontecem quando temos algo pendurado a que queremos dar uma tacada para qualquer buraco negro…
Mas a recordação mais marcante desse tempo será sempre aquela amiga, a minha confidente, quase um anjo da guarda. Não quero desconsiderar as pessoas que lá conheci e até contactei com gente porreira mas com essa amiga desenvolvi uma relação espiritual intensa, diria até intensamente libidinosa! E tudo por causa daquela sala sinistra que me atribuíram como posto de trabalho durante meses a fio. Era eu e alguns computadores e servidores à minha volta; por vezes irrompia gente por aquela porta envidraçada, falando, barafustando, uns furiosos com as máquinas, alguns com bolas anti-stress, outros com um cigarro na boca e mais um na mão, pronto para ser o próximo prego?, pior que isso, ali entre os dedos esquecido, o que dá para ter uma ideia das dependências, dos vícios… mais da máquina que da própria nicotina. A sala podia considerar-se também um museu – à minha frente uma parede de vidro permitia vislumbrar as antigas máquinas com que se trabalhava na antiga companhia nacional de telefones em tempos idos, saudosos para uns, desconhecidos para outros. Após a breve satisfação da curiosidade, decido espreitar por uma das janelas laterais que oferecia uma magnífica vista… para o cemitério. Mas prestando atenção a outra dava de caras com ela, e desvendo aqui a misteriosa e fiel amiga que entrou na minha vida naquele tempo, bem segura e emproada, lá estava ela – a Árvore.
Com o tempo tornou-se a minha confidente, e foi escolhida por não encontrar perfil em ninguém para o ser relativamente ao que me ia verdadeiramente na alma, nem mesmo a pessoa com quem partilhava mais segredos na altura. O que eu tinha para dizer era de grau que me ultrapassava a mim próprio e, por conseguinte, a razão de qualquer ser da minha espécie. Por isso aquela árvore era a mais indicada; para ela, que aguentava ali estoicamente de pé há tanto tempo, o que eu tinha para dizer não lhe faria dobrar de espanto um só ramo. Enquanto ouvia o que me ia na alma, deixava-me assistir ao seu ciclo periódico de vida, desde o nascimento das primeiras folhas que a iam pintando com uma manta verde que daria abrigo daí a quase nada a tantos e barulhentos pássaros que vinham dificultar a conversa, talvez ciumentos daquela nossa cumplicidade. Os dias passavam, contavam-se as semanas, arrastavam-se penosamente os meses, e eis que chegava a estação em que, de forma ousada, ela começava a despir-se até se mostrar completamente fazendo-me ruborizar a mente (vá lá que a minha timidez, vergonha e afins não se mostram na face, é um trunfo que eu fui aprendendo a usar desde miúdo…).
Um dia mudaram-me de sítio e aí sucumbi; concluí que a árvore era o elo que me prendia àquele lugar estranho; fui embora e passei a dedicar-me ao que faço hoje, ficando por saber até quando. Acenei pela última vez ao porteiro, sem nostalgia mas lamentando não a poder trazer comigo. Agora que a lembrança trouxe a saudade, ganha força a ideia de um dia destes lhe fazer uma visita e talvez ganhe também coragem para a abordar com um assunto melindroso a fazer lembrar as dúvidas na cabeça de Manuna (protagonista do livro “as micaias de manuna” do escritor Augusto Carlos - um bom livro para quem quer compreender os porquês com que alguns miúdos adoram brindar os pais e quem mais lhes apareça à frente): porque te despes tu quando nós mais roupa vestimos?
Lamentavelmente não a posso cá apresentar mas fotografei uma que ilustra bem alguns traços que eu vejo na existência de todas as árvores que conheço - solidão e resistência.

Se eu fosse Pablo Neruda ou pelo menos o seu carteiro, escrevia-lhe uma ode; sendo quem sou e a mais não podendo aspirar, limito-me a eternizá-la nestas simplórias palavras...