terça-feira, 8 de abril de 2008

Viagem por grandes obras...

Num dos últimos textos que publiquei ia falar de grandes obras de escritores portugueses que tenho (re)vivido mas comecei pel"Os Lusíadas" e não mais avancei. Deve-se, sem dúvida, à sua infinita grandiosidade! O que vou cá destacar é uma colecção de romances que uma conhecida cadeia de supermercados decidiu re(apresentar) a preços convidativos e com uma imagem renovada. Adorei viajar com Almeida Garret pelo Tejo e pelo vale até Santarém (apenas discordo dele num apontamento final em que se manifesta em absoluto contra os caminhos de ferro que estavam a surgir na altura e apela à construção de estradas de pedra para cavalos e diligências percorrerem o país; discordo porque o comboio é o meu meio de locomoção favorito; uma viagem de comboio produz sensações incríveis, olhamos pela janela e assistimos a um filme de imagens animadas e coloridas que a natureza nos oferece, mas não precisa de ser muito rápido - o TGV dispensa-se - pois a viagem impõe-se descontraída e saboreada; quando se dá conta já estamos no destino e, por isso, a viagem não deixou de ser rápida como sempre se pretende; mas também acredito piamente que se o grande escritor vivesse hoje dispensaria muito bem as estradas e iria apreciar uma viagem sobre carris...). Viajar de carro até pode ser prático, viajar de avião até pode ser rápido, viajar de barco até pode ser delicado, viajar de bicicleta até pode ser saudável, viajar a pé até pode ser sabedoria mas viajar de comboio é isso tudo e mais, é magia...

Mas retomando as grandes obras, foi óptimo deambular com Eurico (guerreiro visigodo de Alexandre Herculano que se converte em Presbítero ao ver-lhe negado o amor a Hermengarda) de Toletum (Toledo) até aos cerros escalvados do Calpe (Gibraltar) de onde se avistavam bem perto os cimos das torres de Septum (Ceuta); dos campos de guerra da região de Híspalis (Sevilha, na altura dos romanos também conhecida por Rómula) até ao refúgio (Covadonga) das Astúrias onde não aceitou resignar-se. E que dizer do tresloucado Amor de Perdição de Simão por Teresa de Camilo Castelo Branco que os leva de Viseu até ao enclausuramento no Porto? E as Pupilas do Senhor Reitor (Margarida e Clara) de Júlio Dinis com as suas vivências cruzadas com Daniel no Alto Minho. E, obviamente, não poderia faltar o amor incestuoso de Carlos e Eduarda em "Os Maias" de Eça de Queirós, obra em que o escritor não poupa a decadência moral de então da 'alta' sociedade da capital e não só. Resta dizer que muito do que estes homens nos legaram através dos seus livros mantém-se actual, para o bem e para o mal...


Agora que este vício me invadiu, estou já a preparar a minha próxima viagem no tempo que pode ir desde A Cidade e as Serras ao encontro com A Morgadinha dos Canaviais e aproximar-me da actualidade com Mau Tempo no Canal, A Selva, Aparição, Memorial do Convento, A Sibila e tantos mais...

Aproveito para deixar aqui uma mensagem pelo seu aniversário à maior gladiadora da vida que alguma vez conheci, a minha mãe. Parabéns e muitos anos para me continuar a aturar!

quinta-feira, 20 de março de 2008

If I Saw You In Heaven?

Hoje começa a Primavera e invadem-nos novas sensações, coloridas pela variedade de essências que a Mãe Natureza nos presenteia. E como é bonita de viver a Primavera da Vida que há muito tempo canta o Rui Veloso, este ano com um sabor mais doce porque surge em plena época da Páscoa com os seus ovos, amêndoas e tradições típicas de cada região. Como é rico este país em diversidades de todos os quadrantes nas suas pequenas divisões geográficas, diversidades vistas pelos olhos de alguém cuja condição meio apátrida permite alguma isenção.

Mas este dia é especialmente marcante para mim porque o Quim comemorou exactamente há um quarto de século o seu 16º aniversário o que quer dizer que, se não lhe tivesse sido roubada a vida nesse mesmo ano, hoje estaríamos a comemorar as 41 Primaveras do meu irmão mais velho. Devo dizer que sou um quase agnóstico ou pelo menos algo céptico relativamente às religiões; até acredito que haja uma força exterior que nos transcende e não fico indiferente a manifestações de fé como já presenciei algumas vezes mas nada me toca mais que a companhia do meu irmão desde que partiu e que eu sinto a celebrar comigo todas as coisas boas que me acontecem e a apoiar-me nos momentos mais difíceis.
Quando partiste ouvi muita gente dizer que a nossa mãe tinha ficado sem o filho mais velho mas tinha ficado com um muito semelhante e cujo o rosto não te deixaria cair no esquecimento, o sétimo filho, eu... Esses comentários não me deixaram indiferente mas a herança que me deixaste de que mais me orgulho é a forma grata de olhar a vida, de a encarar com optimismo. Não duvido que a herdei de ti porque, apesar da minha tenra idade na altura, bem me lembro o que a tua forma de ser provocava em todos nós. Gostaria imenso de ver a expressão do teu rosto em tantos momentos... o que mais destaco é o nascimento da nossa sobrinha mais velha há exactamente 10 anos, a Rita. Talvez tenha nascido a 20 de Março para preencher de alguma forma o vazio que a tua partida nos deixou, talvez tenhas mexido os cordelinhos para que tal acontecesse de forma a não nos esquecermos de ti. Podes acreditar que nunca te esquecerei porque imagino-te através da energia que sinto caminhar ao meu lado e que não me abandona e que eu sei que és TU!

Obrigado irmão, um brinde a ti e à Rituxa, parabéns!
P.S.
Revelo-te agora que, desde que conheço a música "Tears in Heaven" de Eric Clapton, a associo sempre a ti:
Would you know my name
If I saw you in heaven?
Would it be the same
If I saw you in heaven?
Para quem leu este texto fica o endereço onde pode ver a interpretação da música:

terça-feira, 11 de março de 2008

Avaliação dos Professores

Tenho lido muitas opiniões sobre o reboliço em que os docentes se viram envolvidos nos últimos tempos. Considero importante que todos os docentes se afirmem peremptoriamente, repito, peremptoriamente, a favor de uma avaliação. Como em qualquer outra actividade, há bons e maus professores, profissionais e incompetentes, pelo que urge separar o trigo do joio a fim de voltar a credibilizar aos olhos da Sociedade esta mui nobre profissão e de garantir o merecido reconhecimento que em tempos granjeou.

Mas de que forma?

1.De forma a empreender uma segregação na classe, elevando ao topo da pirâmide alguns BONS professores, distinguindo-os de muitos outros igualmente BONS professores, só porque não há dinheiro para pagar a todos os BONS?

2.De forma a valorizar o preenchimento de uma cada vez mais exorbitante quantidade de papelada ambígua que estrangula o tempo necessário para se encontrar estratégias para aumentar a produtividade das aulas?

3.De forma a contribuir para que a fraude ultrapasse pela direita a verdadeira dedicação à causa?

4.De forma a vedar o acesso ao exercício a novos docentes que não consigam atingir um determinado resultado numa prova de acesso, depois das muitas provas no percurso académico? O que significa isto, uma avaliação por antecipação ou uma forma perversa de combater o desemprego na área? Ao que tudo indica, quem não conseguir atingir os mínimos nem professor se pode designar.

5.De forma baseada no parecer dos gestores das novas escolas autónomas? Mas é preciso cuidado porque a autonomia mora ao lado do livre arbítrio de quem tem o poder; como é que os gestores dos estabelecimentos verão a sua "imparcialidade" fiscalizada?

6.De forma a, assentando os seus pressupostos nos resultados dos alunos, contribuir para a gestação de "analfabetos" que irão um dia destes tomar conta do país nos seus mais diversos sectores? Não será preocupante cair-se numa lógica de facilitismo desmesurado só para se atingir elevadas taxas de encartados? A UE vai ficar contente com os números; algumas pessoas neste rectângulo à beira-mar desenhado radiantes; a maioria dos alunos indiferente porque sabem que não precisam de esforço para chegar à meta, chegam de qualquer forma; uma boa parte dos professores desalentada ao ver-se involutariamente atada de forma umbilical a esta realidade. Todas as medidas que retirem aos ombros dos alunos o peso da exigência são medidas com elevados custos a médio/longo prazo.


Não é isto que se pretende para a educação; esta constitui um bem público essencial pois é a base do sucesso de uma Sociedade que se preze e, como tal, demasiado sério para se utilizar como um brinquedo. Acima de tudo, impõe-se uma avaliação séria e justa para que a educação continue a ser uma causa à qual apareçam pessoas motivadas para se dedicar.


Por tudo isto, pais deste país, pensem bem no mundo que querem que os vossos filhos construam para os vossos netos! E dirijo-me aos pais porque, mesmo tendo em conta as dificuldades que muitos passam para levar a vida a bom porto, não tenho dúvidas que a eles cabe o maior esforço para que o barco chegue a alto-mar. Se fizerem esse esforço, os professores estarão nas escolas para ajudar os alunos a seguir a melhor rota e enfrentar as tempestades de Adamastor.




segunda-feira, 10 de março de 2008

E este país, será para velhos?

Não fosse eu como São Tomé (ver para crer, a sua filosofia de vida) e já teria comentado a atribuição dos óscares. "Este país não é para velhos" foi eleito o melhor filme e a dupla Joel e Ethan Cohen finalmente reconhecida com a estatueta da realização (o reconhecimento de "Fargo" soube a pouco). Tudo bem, o filme traz o tempero dos westerns para uma realidade mais actual, de uma forma bem satírica, realçando as razões - nenhuma aparentemente - que levam uns quantos malucos a desatarem a cravar-se de tiros. Algumas partes do filme são bem caricatas, para outras nem se apresenta explicação; talvez não seja necessário, talvez não tenha interesse explicar. O problema é esta minha mania de querer encontrar uma explicação bem racional para tudo o que mexe.

Mas, e Quentin Tarantino com o seu Kill Bill e Uma Thurman no papel de vingadora? Pois para mim não houve dúvida na altura que se trataram de 2 grandes filmes (em especial a sequela) mas foram completamente ignorados em Hollywood. Com isto não quero desvalorizar a conquista dos 2 irmãos, bem pelo contrário! Por isso mesmo, será que sopram ventos de mudança no interior da Academia? Terão receio de alguma coisa ou estarão apenas a descortinar novos horizontes? Então e Tim Burton e as suas criações? E Johnny Depp com as suas fantásticas interpretações? Em cada pele que veste é um assombro de talento em acção e sem limites, capaz de dar vida ao boneco mais inanimado. Para mim ele já ganhou mais de uma dezena de óscares e ai daquele que diga o contrário :-)))

E já que falamos em "vencidos" (os vencedores nem precisam de comentários pois se ganharam é porque tiveram o seu mérito) deixo uma palavra para duas pessoas: George Clooney e Saoirse Ronan. O primeiro dispensa apresentações mas a verdade é que quem o vê apenas como o grande galã (e não é atributo que lhe fique mal, eu até me vou candidatar ao lugar quando tiver idade :-))) o melhor é reparar no seu comportamento em "Michael Clayton" e verificar como ele preenche o ecrã com talento puro e não com esse estatuto. A segunda é uma miúda que encanta e deixa boquiaberta qualquer pessoa em "Expiação"; com o seu olhar de serpente não deixa ninguém desviar os olhos do ecrã. Contudo, se ela vencesse, se calhar o título do filme mais galardoado faria mesmo sentido e esse não é, de certeza, o verdadeiro pensamento dos Cohen.
Para o ano há mais, veremos que surpresas a malta cinematográfica nos vai reservando...

terça-feira, 4 de março de 2008

Beautiful Day



O dia até pode não despertar lá muito bem, acordas e a inércia que te impede de pôr um pé fora da cama é superior a qualquer vontade de abrires a janela e provares o aroma da frescura de um novo Sol que vai rompendo o horizonte...

Então a minha proposta é conheceres ou voltares ao sítio desta imagem, uma pintura onde a natureza invade todos os nossos poros e nos deixa um leve arrepio na alma, uma pintura onde as pedras nos contam a sua história e convivem em harmonia saudável com a verde encosta que se desenha até ao rio que a vai serpenteando numa dança leve mas apaixonada, uma pintura onde os nossos olhos se perdem na imaginação do que se esconderá por detrás da neblina que paira sobre a última montanha, uma pintura para a qual o Homem contribuiu com umas pinceladas geométricas sobre a Terra que com a sua efervescência dá à luz o néctar que identifica o nosso país nos confins do Planeta. Mesmo sendo eu um leigo na poesia, atrevo-me a dizer que consigo perceber exactamente o que Miguel Torga sentia enquanto absorvia a atmosfera que envolve esta pintura e a transcrevia para os seus poemas; e empreendo este atrevimento porque sinto a magia apoderar-se da minha consciência terrena e a transportar-me para um mundo novo, um mundo em que todos os dias são dias perfeitos. Eu já lá estive algumas vezes e desfruto sempre cada fracção de segundo, cada milímetro que alcanço, cada sopro de oxigénio no estado puro...

Por tudo isto, a minha audácia ultrapassa todos os limites e aqui levanto o véu do segredo do ninho de Torga; espero que me perdoe!

Sei um ninho.
E o ninho tem um ovo.
E o ovo, redondinho,
Tem lá dentro um passarinho
Novo.

Mas escusam de me atentar:
Nem o tiro, nem o ensino.
Quero ser um bom menino
E guardar
Este segredo comigo.
E ter depois um amigo
Que faça o pino
A voar...

(Miguel Torga)

Quando não estás perante esta paisagem podes fazer como eu: despertar ao som desta música dos U2 que tem uma carga enorme de energia positiva, pelo menos a suficiente para ter vontade de abrir a janela e deixar o Sol entrar, o Sol que já rompeu o horizonte...

The heart is a bloom
Shoots up through the stony ground
There's no room
No space to rent in this town

You're out of luck
And the reason that you had to care
The traffic is stuck
And you're not moving anywhere

You thought you'd found a friend
To take you out of this place
Someone you could lend a hand
In return for grace

It's a beautiful day
Sky falls, you feel like
It's a beautiful day
Don't let it get away

You're on the road
But you've got no destination
You're in the mud
In the maze of her imagination

You love this town
Even if that doesn't ring true
You've been all over
And it's been all over you

It's a beautiful day
Don't let it get away
It's a beautiful day

Touch me
Take me to that other place
Teach me
I know I'm not a hopeless case

See the world in green and blue
See China right in front of you
See the canyons broken by cloud
See the tuna fleets clearing the sea out
See the bedouin fires at night
See the oil fields at first light
And see the bird with a leaf in her mouth
After the flood all the colours came out

It was a beautiful day
Don't let it get away
Beautiful day

Touch me
Take me to that other place
Reach me
I know I'm not a hopeless case

What you don't have you don't need it now
What you don't know you can feel it somehow
What you don't have you don't need it now
Don't need it now
Was a beautiful day

(Bono Vox, U2)

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

A minha última descoberta musical

Uma das minhas últimas incursões pelas lojas de CDs fez-me escutar com atenção uma voz quente e apaixonada que toca em cada um dos meus sentidos. Essa voz é trazida à superfície por alguém capaz de, se fosse necessário, ressuscitar um estilo que penso eu que um dia se inspirou nos prantos cantados pelas gentes mouras derrotadas, clamando pelo infortúnio do seu destino - o Fado; alguém que o 'veste' com uma nova roupagem. Uma voz que eleva aos píncaros as vibrações das cordas da guitarra portuguesa; uma fadista de corpo e alma: Ana Moura.

Os búzios, Não fui eu, Mapa do coração, Aguarda-te ao chegar, A sós com a noite, Fado das horas incertas são os títulos das faixas que mais aprecio mas as restantes não ficam atrás. Por isso, o melhor mesmo é folhear esta história "Para além da saudade" página a página, linha a linha, letra a letra. Uma história que se complementa com um bónus de alguns vídeos em dvd e com a tradução para inglês ler. Não vou cá citar nenhum dos poemas porque, quem já os conhece sabe do que eu estou a falar, quem não os conhece então espero ter aguçado um pouco o apetite.

Patriotismo?

Nos últimos tempos tenho andado à (re)descoberta de obras ilustres da nossa literatura. Poderia destacar acima de todos "Os Lusíadas" pela grandiosidade épico-histórica de feitos narrados por alguém que provavelmente só o fez porque a sua 'convivência' com os mesmos (não é convivência real pois basta dizer que nasceu quando Vasco da Gama já estava partindo desta vida mas é convivência imaginária só permitida porque palmilhou mais tarde o mesmo percurso do herói navegador) derivou da perigosa ousadia de amar alguém de 'nível' inatingível. Como é feia a segregação, a distinção pela cor da pele, pela religião, pelo dote, pela escolha da sua forma de vida, pelo nome... O Mundo evoluiu mas a diferenciação ainda existe, de forma mais disfarçada pela hipocrisia o que talvez seja mais perigoso pois esta, fazendo jus à sua definição, manifesta-se sem aviso prévio.

Quanto à grande obra cantada de Camões, quem a lê não consegue deixar de se sentir em constante movimento , viajando numa caravela de sonhos entre tudo o que os olhos registam pela primeira vez e o que a imaginação consegue acrescentar, entre um mundo velho e um mundo novo, entre as forças da natureza e a força das figuras míticas. E esta obra tem um efeito adicional sobre a minha pessoa; é que não sendo eu propriamente um patriota, não consigo ser indiferente a esse sentimento quando leio as suas estrofes cantadas. Não consigo olhar para Portugal e para os portugueses como os melhores ou os 'maiores da freguesia' (afinal de contas isso denotaria um certo complexo de inferioridade), apenas avalio as suas características como tento fazer todas as avaliações no quotidiano, o mais imparcial e justo que consigo ser. Mas, entre as muitas qualidades e defeitos, lamento que não se consiga aproveitar da melhor forma a nossa histórica e positiva abertura ao mundo exterior para nos enriquecermos (i)materialmente, para estabelecermos verdadeiras pontes com o que de positivo as outras culturas nos podem trazer. E digo 'positiva' porque acredito nos benefícios da 'aldeia global' que os próprios portugueses dinamizaram há alguns séculos atrás e, por via disso e não só, não nos podemos demitir. Sim, a globalização pode trazer grandes benefícios para todos se assim for a vontade de quem tem o poder da força mas também a força do saber.

Ultimamente até há quem venha com a conversa de Portugal e Espanha se juntarem num só país. Mas será que é mesmo necessário? Haverá ainda quem pense que os nuestros hermanos não nos tenham invadido já há alguns anos?, de forma pacífica e mais ou menos transparente como convém, que não estejam a aproveitar toda a carne que o nosso país tem a envolver o seu esqueleto? Eu cá desconfio de que o próprio tutano não escapa(rá) e, a haver culpas nesta situação, de certeza que não se poderão imputar aos espanhóis. Seria até injusto rotulá-los de oportunistas, talvez melhor lhes fique a etiqueta de 'atentos à oportunidade'.


Entretanto, acho que já sei o que me pode tornar um verdadeiro patriota: ou vou viver para o estrangeiro ou leio mais vezes "Os Lusíadas"! Mas será que o quero mesmo ser?


As armas e os barões assinalados,
Que da ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca de antes navegados,
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados,
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;

(...)


Sustentava contra ele Vénus bela,
Afeiçoada à gente Lusitana,
Por quantas qualidades via nela
Da antiga tão amada sua Romana;
Nos fortes corações, na grande estrela,
Que mostraram na terra Tingitana,
E na língua, na qual quando imagina,
Com pouca corrupção crê que é a Latina.

(Luís Vaz de Camões in Os Lusíadas)