quarta-feira, 6 de maio de 2009
Perdido na serenidade da noite
Apanho o comboio que me há-de levar para fora da mesma, para o outro lado do seu fiel companheiro que a refresca todas as manhãs… sinto a elevar-se o meu lado mais urbano, este meu lado que deseja ardentemente construir a vida dentro de uma cidade, que faz adormecer o meu eu com modo de vida idealizado em convívio com a natureza. Acho que estou mesmo a precisar de ler “A Cidade e as Serras” do Eça para ver se esclareço as dúvidas, talvez queira mesmo o melhor destes dois mundos, o de cimento firme e hirto e o de terra em nuvens de pó. Mas estou curioso e ansioso por ter tempo para desbravar esta obra, tenho-a a olhar para mim e a suspirar para sentir-se segura nas minhas mãos, o dedo indicador a postos para virar a página, os olhos gulosos bebendo-lhe o néctar… os mesmos olhos que já vêem ao fundo as luzes da 25 de Abril, que não se cansam de a contemplar, à noite torna-se um pêndulo parado sobre as margens, uma ponte que rivaliza em estilo com a fantástica e arrebatadora D. Luís e surge aqui mais um duelo norte-sul mas um duelo bem saudável, mostrando o melhor de dois mundos.
A acompanhar-me na travessia passa uma música de sonoridade triste mas nem por isso deixa de fazer parte da minha banda sonora, “November Rain” dos Guns n’Roses que contrasta positivamente com a explosivamente enérgica “Sweet Child O’Mine” (a minha preferida neste capítulo da energia) embora ultimamente tenha sido despertado para “Patience” que começa com o vocalista ainda menino a assobiar e que eu nunca aprendi pois quando era miúdo concentrei-me de forma excessiva na missão de como apertar os atacadores e deixei de parte o assobio e também a arte de bem-fazer balões com pastilha elástica. Mas paciência, até podemos querer ter o mundo na palma da mão mas mesmo que o conseguíssemos não podíamos fazê-lo parar e logo a seguir haveria de se soltar para a liberdade e, se nos ofereceram o privilégio de aqui ter lugar então é para desfrutar o que tem para nos dar mas não para o querer de assalto tomar.
segunda-feira, 9 de março de 2009
Diferente na forma, semelhante no proveito!
Um destes dias perguntaram-me como serão os típicos fins-de-semana passados na terrinha, no meu caso Santa Maria da Feira, a mais de 300 km do local de trabalho. Isso acabou por constituir um desafio para a forma como eu próprio os vejo e qual das perspectivas que os caracteriza é que escolho para enaltecer, se a diferença da forma ou se a semelhança do proveito. Faço então aqui a experiência laboratorial da narração de um deles, por exemplo o último.
Com início em solo sulista, começo por apanhar o comboio que me faz passar a ponte que por sua vez me atira em pensamento para São Francisco, Califórnia, com falha geográfica incluída (será por essa mórbida semelhança que decidiram construir ponte tão similar?). Hoje saio do comboio em Campolide para dar asas a um dos meus 'hobbies', a fotografia, e lá vou eu captar ângulos dos arcos em ogiva de uma das obras mais espectacularmente arrojadas ou arrojadamente espectaculares alguma vez construídas em Portugal, o Aqueduto das Águas Livres. Entretanto há que seguir para Santa Apolónia onde registo o boletim da sorte, com a qual não faço parelha particularmente feliz, e compro a minha revista de viagens preferida, ao longe a capa faz-me lembrar uma cidade, traz de oferta um filme que parece por sua vez trazer na capa o meu actor favorito, Johnny Depp. A cidade é mesmo Nova Iorque, a película é mesmo dele, não posso satisfazer a curiosidade de o ver já em acção mas aproveito a viagem sobre carris para descolar e aterrar sobre uma floresta de pedra, vista a partir do Empire State Building, percorrer as frenéticas avenidas de Manhattan, pessoas com o café da manhã numa mão e a outra bem levantada a fazer operação stop aos seus maiores concorrentes em número e em pressa de chegar a todo o lado e a lado nenhum – os inconfundíveis táxis amarelos. Mas falar em café da manhã é relativo pois, na cidade que nunca dorme, o café da manhã até pode ser tomado com o brilho dos néons publicitários de Times Square ou dos milhares de luzes oriundas das janelas dos seres mais marcantes da cidade – os arranha-céus. Passaram 3 horas e 7 minutos, regresso da viagem imaginária como um relâmpago e acordo em plena estação de Espinho.
É cedo? É tarde? Confesso que não faço a mínima ideia pois ainda não abri os olhos (chego à conclusão que abrir os olhos não é a primeira coisa que se faz ao acordar) mas penso que seja Sábado. Dia de começar por usufruir de um dos grandes prazeres da vida – dormir. Após o almoço procuro a minha octogenária favorita, a minha avó, para lhe dar os parabéns por mais uma primavera que se avizinha e que ela já comemorou, como é habitual, em antecipação e ofereço-lhe chocolates, algo a que ela não resiste tal como uma boa dentada num queijo e tal como a sua filha mais velha que, por sua vez, transmitiu estes gulosos vícios a este filho, neto da primeira. A maluqueira dos iogurtes, essa foi obra da minha pré-infância, e que até Hoje não esmureceu. Um passeio ligeiramente para interior até à barragem leva-me pela estrada ribeirinha de olhos sempre postos no Douro em direcção ao Porto. Visito pela primeira vez o Lugar do Desenho (Fundação do pintor Júlio Resende) e sigo para Gondomar para chegar pontualmente à exposição Afectividades, de uma amiga artista (vale a pena uma visita ao blog da Alexandra onde se pode ver uma amostra do excelente trabalho). Ao jantar recebo um convite para a festa do próximo enlace (desta feita de uma dupla de Santo Tirso) e a noite não acaba sem se beber um copo bem ritmado pelos sons da noite. A minha opção é conhecer o Café del Mar de Gaia, e chego à conclusão que é o menos interessante dos que conheço, falando do 'design' pois a música está boa.
O Domingo tem o velho problema de ser véspera de 2ª feira, passa a correr e traz uma ténue depressão pré-trabalho, mas com o sol a abrir o horizonte nada melhor que o lanche à beira-mar, desta feita em Leça da Palmeira e ficar ali a ver a curva descendente da estrela maior, deixar o crepúsculo semicerrar as pálpebras, a intermitência das luzes no céu que já escureceu e a mentalização para mais uma semana de trabalho, no meu caso ainda com um "pegar de novo o trem".
Está passado mais um fim-de-semana, diferente na forma mas semelhante no proveito. Pelo meio fui debitando estas palavras para o papel sem esquecer de deixar aqui uma homenagem à mulher pelo seu Dia Internacional. Seja pela teoria de evolução bíblica, darwiniana, ou outra qualquer, é a mulher o ser responsável pela existência de todos os homens, no meu caso responsável pela existência, permanência e vontade de continuar. Acrescento uma palavra particularmente especial para as que ocupam cada degrau da minha pirâmide interior desde a base até ao vértice. E acrescento uma palavra de alento para todas as que estão a passar por momentos difíceis, em especial às que vivem encurraladas por vergonhosas opressões. A todas dedico esta música de John Lennon de título evidente e mensagem adequada.
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009
Coffee break
Pergunta quem não é adepto do café o porquê de estar a ler estas palavras. Resposta simples, o prazer é o mesmo levando à boca um chocolate quente ou capuccino, um chá quente ou frio, um copo de vinho ou cerveja, uma simples água com ou sem gás, um refrigerante ou sumo natural, um batido ou um jarro de sangria,… e todo este prazer sozinho ou partilhado com um cigarro entre os dedos, um jornal aberto, capítulo de um livro ou com alguém batendo um papo…
terça-feira, 10 de fevereiro de 2009
Saudades do sol e não só...
Estou na Playa de Ses Illetes onde não é possível resistir à tentação de apregoar a perfeição do Planeta Azul. Já lá vão alguns meses, agora tenho o frio a espreitar pela janela e a provocar-me um arrepio de saudade pelos dias lá passados e uma súplica pelo próximo sol quente, algures escondido atrás das nuvens que passam a correr sobre o céu de quem circula na rua; é a altura ideal para escrever algo sobre duas ilhas Baleares fantásticas: Ibiza y Formentera.
À saída do avião, a brisa quente e seca que sopra, depois do arrebatamento das cores do mar vistas do ar, é a prova final de que estamos algures perdidos no Mediterrâneo. Com a chegada ao quarto do hotel, uma sensação desperta para uma corrida até à varanda onde a batida da música que vem do outro lado da rua invade qualquer um e passa a controlar todos os movimentos - é o som único das Ibiza Summer Sessions. Avista-se malta jovem mexendo-se ao ritmo certo, de forma bem ousada vão fazendo o jogo da sedução e facilmente se verifica que a ilha serve intentos tão díspares como passar uns dias cheios de programas bem românticos ou conhecer pessoas novas e dar largas à imaginação, começando por beber um copo de cada vez nos muitos bares com propostas bem diversificadas e acabando as noites encharcados pela espuma que algumas discotecas oferecem. Ibiza não é um sítio, é um estado de espírito. As suas praias também contribuem para esse sentimento, mas nesse domínio a vizinha Formentera constitui-se como uma pequena mas valiosíssima pérola!
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009
Como é que eu poderia esquecer o Porto...
A mesma tem muitas portas de entrada, as mais encantadoras são oferecidas a quem vem de sul pelas várias pontes que cruzam a grande altura o Douro que mantém o seu bailado desconcertante por entre encostas curvas. A minha sugestão só podia ser a do Carlos Tê que escreve assim para a voz de Rui Veloso “Quem vem e atravessa o rio, junto à serra do Pilar, vê um velho casario, que se estende até ao mar”. Pode-se fazê-lo de metro mas o melhor mesmo é a pé para dar tempo suficiente às cores da Ribeira
E se a ideia do visitante é percorrer a monumentalidade, o Porto não desilude, podendo circular pelo pátio exterior da Sé, em torno do pelourinho, invadir o espaço interior, descer à estação de comboios de São Bento e deixar cair os queixos perante as gravuras de azulejo que revestem as suas paredes, subir a Avenida dos Aliados sempre com os olhos postos nas fachadas e cabeços dos edifícios que a ladeiam, flectir à direita e seguir com os ouvidos o rasto das apregoadoras do Bolhão, ou se preferir outras compras, percorrer a Santa Catarina mesmo que só para sentir a atmosfera dos passos cruzados da multidão, com o valor acrescentado que esta época proporciona com o cheiro da castanha assada e eis que se chega à praça da Batalha, rodeada por salas históricas de cinema e teatro, não esquecendo o Coliseu que do alto da sua rua observa o Rivoli com o qual a partilha.
Mas uma jornada destas já com algum peso nos músculos das pernas não deixa o viajante seguir em frente quando passa pelo Majestic sem ceder à tentação do convite das suas cadeiras para o cimbalino. Fazendo o percurso de uma parábola com concavidade positivamente voltada para o céu, chega-se à Torre dos Clérigos e o esforço das centenas de degraus é refrescantemente compensado não por uma
Voltando lá acima porque não vaguear nos jardins do Palácio de Cristal? E em pouco mais de quase nada chega-se à mais famosa rotunda da cidade em cujo centro se avista no alto um leão com as garras afiadas sobre as penas da águia, não retirando aqui quaisquer ilações pois estou numa posição neutral em relação a esta disputa. Numa das saídas destaca-se a Casa da Música, edifício polémico pelos atrasos no timing de construção e (a)normais derrapagens financeiras infelizmente comum a muitas obras públicas mas de inegável singularidade arquitectónica, que se junta ao (já que se meteu a colherada no futebol) Estádio do Dragão no que concerne a beleza dos novos padrões de construção. Tenho esta opinião totalmente isenta pois se cá no íntimo não gostasse da obra, era o primeiro a maldizer tal como o faço sempre quando as coisas não andam bem pela naçon azul. Polémicas à parte fazemos bem em descer a Avenida, e como é a maior que eu conheço no país, o melhor é parar a meio para lamber o beiço ao devorar a francesinha do Cufra. Bem sei que os gostos não se discutem mas esta faz parte do top de qualquer apreciador. Não esqueci as tripas mas pode-se deixá-las para o fim da volta ao regressar à Ribeira.
Retomando a mesma avenida, vale bem a pena fazer um desvio à esquerda para uma entrada na Casa e um mergulho nos Jardins de Serralves. De repente sente-se que a presença momentânea numa cidade talvez não esteja a passar de um sonho, até ser interrompido pela passagem a alguns pés de distância de um avião a aproximar-se do seu poiso. Antes do Castelo do Queijo, agredido pelas ondas do
E dando a tão pedida atenção a esse mar egocêntrico ao circular pela marginal da Foz, o passeio continua bem agradável e quando se dá conta já não é mar mas o seu enlace com o rio. A bicicleta é o meio ideal para seguir caminho mas uma viagem de eléctrico dá uma expressão pitoresca ao que falta palmilhar. Surge então a Ribeira com os rabelos e outros tipos de barcos sem passado atracados no cais a oferecerem o cruzeiro das pontes, uma forma diferente de se ver a cidade.
Outros sítios emblemáticos ficam por referir, entre palácios, museus, ruas, jardins, lagos, pátios habitados por
Agora Milton, vou pensar se te perdoo, não a acusação com que eu começo este texto, mas o facto de teres depreciado tanto o papel da minha diva Meryl Streep no “Mamma Mia!”, onde até deu um novo encanto à minha música preferida dos Abba “The Winner Takes It All” quando a interpretou com voz rouca e nostálgica, emoldurada por indescritíveis paisagens gregas, a mesma nostalgia que eu tenho ao escrever sobre o Porto a partir das vistas do meu quarto sobre Lisboa. Talvez o que te tenha ferido seja o facto de os Abba serem aquela banda que deixou uma marca, uma herança, talvez a despedir-se do seu público no momento em que nasceste mas logo ali te ficou no ouvido e cresceste numa adoração também crescente às suas músicas e, sendo para ti obras-primas, ninguém deve ousar proferi-las em vão. No meio de toda esta confusão sobra-me o discernimento para te agradecer o contágio que me passaste ao longo daqueles anos de convivência quase diária de Aveiro para crescer em mim uma admiração por estes 4 suecos que passaram que nem um tornado por este mundo, deixando uma indelével e irracional marca, desaparecendo de seguida quiçá para passar o tempo em jogatinas de sueca a 4.
quinta-feira, 22 de janeiro de 2009
Mensagem que não sai da gaveta de quem a pensa
Penso que essa preocupação ilustra bem a maior lacuna da sociedade actual – a indiferença. É impressionante a forma como o crescente aparecimento de vias de comunicação simples e rápidas traduz-se de forma inversamente proporcional nos contactos humanos. A atmosfera dos nossos dias apresenta-se estranhamente cinzenta… vazia… ausente… inerte… engolida pelo efervescer do dito progresso que o futuro dirá se se tratou ou não de mero desenvolvimento de fachada e não gelou por completo o interior de cada um na sua relação com o mundo, com os outros e, no limite, consigo próprio. Até dá a ideia que a ausência de esforço em fazermos chegar o nosso pensamento numa fracção de segundo a alguém que se encontre nos nossos antípodas banalizou e, por conseguinte, desvalorizou o relacionamento humano. Sente-se que havia mais vontade em comunicar quando se tratava de um cabo de tormentas fazer chegar a mensagem ao destinatário e não é necessário recuar ao tempo do pombo-correio ou dos sinais de fumo.
sábado, 10 de janeiro de 2009
La Movida
Madrid, à semelhança das outras cidades conterrâneas, convida a sua gente para as calles - tudo o que mexe está na rua. Há comércio por todo o lado, o movimento é constante, e se a situação é esta em tempo frio e de mini-férias, imagine-se no quotidiano.
Madrid é, ao contrário de outras capitais de peso, discretamente turística – estão longe de proliferar as típicas ofertas que se vêem de olhos fechados em tantos outros sítios e que, reconheça-se, são eficientemente propagandeados e explorados. Os turistas misturam-se no meio da multidão, tornando-se apenas mais uma peça do puzzle cheio de estilo que constitui a cidade. Parece que o mais importante mesmo é dar aos residentes e visitantes lojas de roupa de todas as marcas, cafés distintos, restaurantes para todos os gostos - do 8 ao 80 no preço – quem quiser o 8 pode jantar no Museo del Jamón, escolhendo por exemplo o do Paseo del Prado diante do homónimo Museo del Prado de Velasquez e não só; quem quiser o 80 ainda é mais fácil encontrar.
Madrid dá um verdadeiro sentido à popular expressão “Porta-te mal mas com nível” pois este é algo que se respira avenida acima, avenida abaixo, rua à esquerda, rua à direita. E isso foi o que fiz durante três dias pelo que, no último, veio mesmo a calhar o banho de imersão envolto em espuma proporcionado pelas excelentes condições do hotel (não se pense que foi num de 80, estava bem mais próximo do 8, mas há já algum tempo que ultrapassei o pequeno trauma que me impunham em miúdo de que nuestros hermanos não recebiam bem, que davam más condições higiénicas e alimentares aos visitantes – se assim fosse como é que conseguiam estar permanentemente no top dos países mais visitados?).
Por casualidade, assisti no hotel à transmissão da mensagem de Ano Novo do Presidente da República, a nossa que está quase a fazer um século de existência, e registei as suas palavras nomeadamente as justamente feitas aos pequenos comerciantes e agricultores. Quanto aos primeiros acho que já expressei bem a minha opinião, só é pena que o Presidente, quando ainda estava longe de Belém e as suas paragens eram mais para os lados de São Bento, tenha dado o seu contributo para a tendência das últimas décadas de afastar as pessoas das ruas e oferecerem-lhes a “comodidade” dos espaçosos, práticos, térmicos e afastados centros comerciais. Quase não há cidades, grandes, médias ou pequenas, neste cantinho que não tenham o seu. Esse engodo é o maior desprezo que lhes poderiam fazer, a factura virá mais tarde mas, para não variar, já não estarão presentes os responsáveis pela encomenda. Parece a história da desertificação do interior do país, também abordada no discurso à nação, é muito interessante reflectir sobre isso mas basta olhar às recentes medidas governamentais e… sem palavras!
Quanto aos segundos, os agricultores, apenas tenho a lembrar algo que ouvi quando era ainda um ser imberbe: “a agricultura deve ser a base da economia de qualquer país”. Numa hipotética e completamente indesejável situação de crise extrema, o que restará à Humanidade para sobreviver? O essencial, a comida! E que virá de onde, caso a cadeia global de engrenagens que nos fazem ostentar a vida que levamos actualmente emperre? Da terra, pois claro!
Ora, a paisagem que uma viagem de carro até Madrid proporciona também coloca a nu diferenças significativas na matéria entre nós por cá e eles por lá. Até podem dizer que a economia espanhola está também em abrandamento, que caminha igualmente para a recessão, mas a verdade é que, por exemplo, o salário mínimo deles é aproximadamente 50% superior ao nosso. Se as economias pararem, essa diferença não esbaterá nem um cêntimo e acrescente-se que, ganham mais e desembolsam o mesmo ou ainda menos pelo que consomem. Tudo isto não é ser apátrida, é ser realista.
Resta o optimismo, já que o novo ano ainda não saiu do adro!
segunda-feira, 29 de dezembro de 2008
Balanço e prognóstico
terça-feira, 16 de dezembro de 2008
Aquela a quem um dia chamei confidente
Provavelmente estou a exagerar mas quando um simples aceno ao porteiro (não querendo de forma alguma desprestigiar o cargo) constitui uma marca na memória de um passado já com uma certa distância, alguma coisa há-de significar. Ainda se fosse uma porteira com rasgado sorriso mas nem era o caso. Distância essa multiplicada por tudo de bom que já tive o privilégio de fazer depois dessa etapa. E como é óptima a terapia oferecida pelas coisas boas que nos acontecem quando temos algo pendurado a que queremos dar uma tacada para qualquer buraco negro…
Mas a recordação mais marcante desse tempo será sempre aquela amiga, a minha confidente, quase um anjo da guarda. Não quero desconsiderar as pessoas que lá conheci e até contactei com gente porreira mas com essa amiga desenvolvi uma relação espiritual intensa, diria até intensamente libidinosa! E tudo por causa daquela sala sinistra que me atribuíram como posto de trabalho durante meses a fio. Era eu e alguns computadores e servidores à minha volta; por vezes irrompia gente por aquela porta envidraçada, falando, barafustando, uns furiosos com as máquinas, alguns com bolas anti-stress, outros com um cigarro na boca e mais um na mão, pronto para ser o próximo prego?, pior que isso, ali entre os dedos esquecido, o que dá para ter uma ideia das dependências, dos vícios… mais da máquina que da própria nicotina. A sala podia considerar-se também um museu – à minha frente uma parede de vidro permitia vislumbrar as antigas máquinas com que se trabalhava na antiga companhia nacional de telefones em tempos idos, saudosos para uns, desconhecidos para outros. Após a breve satisfação da curiosidade, decido espreitar por uma das janelas laterais que oferecia uma magnífica vista… para o cemitério. Mas prestando atenção a outra dava de caras com ela, e desvendo aqui a misteriosa e fiel amiga que entrou na minha vida naquele tempo, bem segura e emproada, lá estava ela – a Árvore.
Com o tempo tornou-se a minha confidente, e foi escolhida por não encontrar perfil em ninguém para o ser relativamente ao que me ia verdadeiramente na alma, nem mesmo a pessoa com quem partilhava mais segredos na altura. O que eu tinha para dizer era de grau que me ultrapassava a mim próprio e, por conseguinte, a razão de qualquer ser da minha espécie. Por isso aquela árvore era a mais indicada; para ela, que aguentava ali estoicamente de pé há tanto tempo, o que eu tinha para dizer não lhe faria dobrar de espanto um só ramo. Enquanto ouvia o que me ia na alma, deixava-me assistir ao seu ciclo periódico de vida, desde o nascimento das primeiras folhas que a iam pintando com uma manta verde que daria abrigo daí a quase nada a tantos e barulhentos pássaros que vinham dificultar a conversa, talvez ciumentos daquela nossa cumplicidade. Os dias passavam, contavam-se as semanas, arrastavam-se penosamente os meses, e eis que chegava a estação em que, de forma ousada, ela começava a despir-se até se mostrar completamente fazendo-me ruborizar a mente (vá lá que a minha timidez, vergonha e afins não se mostram na face, é um trunfo que eu fui aprendendo a usar desde miúdo…).
Um dia mudaram-me de sítio e aí sucumbi; concluí que a árvore era o elo que me prendia àquele lugar estranho; fui embora e passei a dedicar-me ao que faço hoje, ficando por saber até quando. Acenei pela última vez ao porteiro, sem nostalgia mas lamentando não a poder trazer comigo. Agora que a lembrança trouxe a saudade, ganha força a ideia de um dia destes lhe fazer uma visita e talvez ganhe também coragem para a abordar com um assunto melindroso a fazer lembrar as dúvidas na cabeça de Manuna (protagonista do livro “as micaias de manuna” do escritor Augusto Carlos - um bom livro para quem quer compreender os porquês com que alguns miúdos adoram brindar os pais e quem mais lhes apareça à frente): porque te despes tu quando nós mais roupa vestimos?
Lamentavelmente não a posso cá apresentar mas fotografei uma que ilustra bem alguns traços que eu vejo na existência de todas as árvores que conheço - solidão e resistência.
Se eu fosse Pablo Neruda ou pelo menos o seu carteiro, escrevia-lhe uma ode; sendo quem sou e a mais não podendo aspirar, limito-me a eternizá-la nestas simplórias palavras...
segunda-feira, 8 de dezembro de 2008
Feliz Natal
quinta-feira, 4 de dezembro de 2008
Eis que o fado regressa ao blogue
É a Ana Guerra com a sua “Maria das Quimeras”, um álbum que atinge na plenitude o que mais procuro numa história cantada – o vício. Posso dizer que não é amor à primeira vista mas de cada vez que o deixo rolar na aparelhagem já só espero pelo final para repetir a dose.
Quem tiver o privilégio de ouvir seus fados viajará num carrossel de emoções desde a velocidade de corridinho saltitante em “Quem brinca com fogo” onde podemos recordar sábios ditados populares até à velocidade cruzeiro com sonoridade que a minha (in)cultura musical lembra Rodrigo Leão em “Quero ser somente”. E que bem que Camões regressa após séculos no seu sono profundo com o seu “Amor é fogo que arde sem se ver”. O berço deste sentimento entoado nos seus bairros castiços também não é esquecido pois “Lisboa é sempre Lisboa”. E que tal naufragar na fatalidade de encontros e desencontros, montanha-russa de emoções que habitualmente caracteriza o fado em “Encontrei-te mas perdi-te”? Igualmente fatal é a interrogação de qual é o melhor capítulo da história. Muito difícil a escolha mas, para além dos que já referi, destaco ainda “Dizem que o fado nasceu” cuja melodia se solta agora mesmo nas paredes que me rodeiam e “Saudade vai-te embora” com uma mistura deliciosa de acordes (aqui aproveito para homenagear os responsáveis pelos sons libertados pelas cordas dos instrumentos, em especial a guitarra portuguesa).
E já que se fala em destaques não posso esquecer Vítor Reino que as palavras de agradecimento da Ana “O seu talento extasiou-me” bem ilustram e de que não duvido a olhar à amostra do que conheço do seu trabalho ao comando do grupo Flamma Voccis, que já me deliciou o espírito algumas vezes.
Agora que chegou ao fim uma vez mais e o silêncio impera nesta casa, fiquei a pensar que se não gostasse tanto oferecia-o à pessoa que mais admiro e que por sua vez admira o fado – a minha mãe. Mas vou emprestar-lhe, antes que se risque, pois tudo o que é bom na vida só o é para mim se for partilhado. Gosto de ver a marca que as sensações que me tocam os sentidos deixam nas outras pessoas.
Em suma, se na Ana Moura destaquei a voz quente, roucamente aveludada, na Ana Guerra enalteço a voz poderosa, altiva, atingindo ambas mas com textura diferente os mesmos píncaros da guitarra e as nostálgicas vibrações das suas cordas.
segunda-feira, 1 de dezembro de 2008
Os olhos do próximo são o melhor espelho
Colado à janela levo a companhia do sol que vai aquecendo todos os seres mais ou menos inanimados mais ou menos seguros pela gravidade emanada das profundezas do solo que vão palmilhando desde a alvorada. As gotas de orvalho suspensas nos braços descascados das árvores geometricamente separadas há muito que se eclipsaram. Os raios de luz que transpõem a massa gasosa que define a forma esférica do planeta deixam-me num estado febril que a custo vou resistindo para não me deixar levar pelo sono provocado. Como que reagindo à hipnose giro a cabeça para a janela oposta e avisto uma encosta forrada por um manto verde e castanho respectivamente pintado pela diversidade de plantas e pela vegetação amadurecida que um par de cavalos brancos vai consumindo em saudável competição. Este cenário preenche quase toda a janela, deixando espaço apenas o suficiente para se ver que o céu está azul vivo riscado de sangue branco que as passarolas (como diz Saramago no seu Memorial do Convento) a motor provocam ao rasgá-lo sem dó nem piedade a velocidade estonteante. O mesmo céu que se reflecte no rio, entretanto emergente na paisagem, cruzado por duas pontes que apresentam duas eras na construção, a do ferro e a do betão, no meio das quais um solitário pescador no seu barco suspenso sobre as águas pacíficas, esperando irredutivelmente que alguém morda o anzol, vê a imagem dos seus olhos ser devolvida pelo frio espelho e, através dos quais, o reflexo de todo o cenário que aqui se vê transcrito num pequeno excerto, consciente que está quem escreve de que seria um desafio tão exequível descrever tudo o que vê como conseguir esconder-se da sua própria sombra...
terça-feira, 11 de novembro de 2008
Salada de fruta com castanhas
Eu até gosto bastante de fruta, quando consigo vencer a preguiça de a preparar. Nesta altura do ano surge o carnudo, suculento, … dióspiro. Já ouvi dizer que com canela fica-se sem palavras, tenho-me esquecido mas um dia destes experimento juntar a minha especiaria de eleição, antes que se vão embora mas vá lá que aparecem entretanto as romãs recheadas de bagos cristalinamente rosados e apetece comer um a um como se contam as pétalas dos malmequeres, devagar... Após o magnífico cenário que as suas progenitoras proporcionam aparecem de par em par as pequenas mas irresistíveis cerejas e depois do adeus deixam o protagonismo para o melão que refresca qualquer Verão, seja de entrada ou de sobremesa. Não podia cá faltar o "fruit de la passion", não há doce de maracujá que eu não aprecie, aparecendo sozinhos então tornam-se um vício imparável. E para terminar o ciclo da fruta vêm as uvas mas no caso destas, o que é perfeito é o néctar que delas escorre e que Baco e muito mais gente não resiste!
terça-feira, 4 de novembro de 2008
Espionagem no comboio da aldeia global
A juntar a esta amálgama de sensações acrescento o facto de, ali sentado, poder discretamente olhar nos rostos cansados do trabalho, deprimidos com a vida, preocupados com algum problema recente, resignados com um não tão recente, ávidos pela partida, ansiosos pela chegada, animados em conversa de grupo, mexidos pela música que toca no leitor de MP3 (alguns em altos decibéis como se os outros tivessem pedido para que fossem o seu DJ de serviço), concentrados na SMS acabada de chegar, apressados a responder, atentos na leitura, distraídos na conversa ao telemóvel, alguém menos distraído a falar com alguém que está em França partilha de forma preocupada informações sobre a crise transmitida por outros parentes que estão nos States e no Japão, a aldeia global em todo o seu esplendor, até na crise... Há ainda olhares perdidos no horizonte, um a ler um livro que eu já li (será que imagina o final surrealista?), outros a ler livros que eu não li (fico com curiosidade de uns, de outros nem por isso), alguém que tenta ler a todo o custo o de outrem e fica rezingona por virarem a página sem ter chegado ao fim, quem a manda ser impertinente?, há também os novos leitores (os da imprensa gratuita), os obcecados por palavras cruzadas que buscam desenfreadamente uma solução difícil num compartimento algures esquecido do seu cérebro, e não esquecer a mulher que dá os últimos retoques na maquilhagem. O que mais me faz confusão é ver gente a ler de pé; é que, para mim ler é como comer, tem que ser sempre sentado para saborear bem cada palavra.
Entretanto alguém já se deve ter apercebido que eu também aproveito a viagem para fazer alguma coisa, espero é que não percebam que desta vez estou a fazer espionagem… tento disfarçar olhando Lisboa pelas janelas de ferro da ponte, hoje parece-me mais entorpecida pelo sono, ou então serei eu porque dormi bem menos do que o tempo que preciso para usufruir desse prazer que a vida me dá e atiro as culpas injustamente à cidade.Voltando com os olhos para as pessoas reparo numa rapariga que, impaciente, pensa em voz alta no que está a ler e vai tirando pequenas notas. De repente, surpreende-me com a pergunta de qual é a próxima estação mas num sotaque americano bem engraçado e rosto espanhol?, italiano? Lá atirei com as vulgares hipóteses mas nada disso!, francesa de gema – mas sossegou-me porque é normal não acertarem, uns vêem traços árabes, outros judeus,… confuso? Talvez, mas penso que ela simboliza bem o que podemos ser todos nós – o resultado da encruzilhada cada vez mais entrelaçada de gente que um dia partiu do mesmo ponto, se dividiu, se moldou, se definiu para muito tempo depois se (re)aproximar, se (re)misturar, se (re)fundir. Curiosamente, o livro que ocupava a rapariga que nem o nome sei, talvez ande por cá em Erasmus, tinha como título “Anatomia do Corpo Humano”. Eloquente? Eu sei que não!
quinta-feira, 16 de outubro de 2008
O último dia dos sorridentes 30 anos
Aproveito para sair um pouco mais cedo e fazer uma descontraída 'promenade' fotográfica por Lisboa, ao encontro de espaços que ainda não explorei. Rumo ao Campo Pequeno e contemplo a monumental praça, sigo a Avenida da República (esta em comemoração de quase um século de vida), bloqueio nas obras do metro obrigando-me a desviar mas um desvio perfumado pois, na esquina seguinte, invade-me o aroma do café oriundo de Timor, São Tomé e Príncipe, Brasil, …, de uma loja tradicional que por momentos transporta-me até distantes e encantadoras paragens. Vagueio sobre as pedras abrigadas pelas árvores do parque verde da Fundação do grande benemérito Calouste Gulbenkian, ouço os pássaros, percorro com o olhar a rota dos patos no lago, perco a noção da cidade lá fora. É este bálsamo mágico uma dádiva destes espaços que rejuvenesce quem os visita.
De novo na confusão subo até ao Jardim da diva, Amália Rodrigues, suspendo os meus olhos no horizonte desde os geométricos jardins do Parque do monarca britânico, Eduardo VII de seu nome, até ao vaidoso Marquês de Pombal que do alto do seu pedestal espreita o Tejo ao fundo, espelho da “sua” Baixa e dos bairros que rivalizam anualmente na Avenida que por Liberdade a tomaram e por entre os quais escorre. Exploro a Estufa Fria, e a Quente também, para de seguida me deixar levar pela brisa que sopra em direcção ao rio. Meia cidade percorrida e chego enfim a Santa Apolónia, imortalizada pela chegada do general “sem medo”, Humberto Delgado.
É na estação que avisto alguém que a minha memória vislumbra de tempos idos da Universidade. Não sei o nome mas ainda não esqueci que ao seu lado fiz alguns exames; provavelmente nem me conhece mas gostei de o rever, saber que por cá anda, com a batuta da vida na mão, fazendo o seu percurso de forma acelerada. E que nostalgia me deixou a pensar no que seria a nossa vida se pudéssemos ter por perto toda a gente que vamos conhecendo e que nos enriquece a existência. Não sei se seria bom mas deixa-me bastante curioso. E porque não um desafio mais ambicioso: cada um conhecer toda a gente deste mundo; descermos à rua e com quem quer que nos cruzássemos saberíamos exactamente quem tínhamos pela frente. Teria pelo menos um efeito negativo, perdia-se o mistério do rasto que rostos desconhecidos que os nossos sentidos encontram a todo o instante deixam quando lhes perdemos o alcance.
Agora que os vinhedos ribatejanos passam pela minha janela e nos campos convivem sadiamente touros e cavalos (será que imaginam o confronto que os humanos um dia lhes determinam?, quem sabe na praça onde comecei o meu passeio...), é hora de deixar a caneta e o papel e passar os dedos por uma revista de viagens. A imagem de capa desafia o sonho, nada mais que o Transiberiano que me faz saltar da real viagem do Intercidades para a imaginária Grande Travessia Intercontinental. Um dia, talvez…
segunda-feira, 25 de agosto de 2008
Desilusão? Nada disso!
Mas digam lá que mais se pode exigir de pessoas que dão (quase) tudo das suas vidas para atingirem os mínimos, para se prepararem para a derradeira competição, depois das condições que damos à grande maioria? Não digo que são miseráveis, até tem havido algum esforço das entidades “superiores” nos últimos tempos, mas fazendo uma comparação com os restantes países facilmente se vislumbram as diferenças abismais. Ou será que estou a ver mal e afinal estamos na China a competir sozinhos? Alguns até quase abdicam das outras competições internacionais para se apresentarem nas Olimpíadas na máxima força. O desabafo de Gustavo Lima (a medalha de bronze era inteiramente merecida) leva-me para as acusações sobre o dinheiro que se gastou com a preparação dos Jogos. Parece muito? É só dividir esse valor pelo número de atletas e comparar com os prémios individuais dos jogadores da selecção de futebol quando vão às fases finais e lembrar que um dia estes meninos tiveram a distinta lata de pedir isenção fiscal aos seus prémios. No mínimo, os que actuam em grandes clubes, deveriam doá-los, que falta lhes faria? E já que dizem que lá vão pelo orgulho pátrio, que necessidade existe para se atribuir prémios? Portanto, o desabafo do Gustavo faz todo o sentido e, se querem mesmo obter mais medalhas, não há outro remédio que não seja oferecer todas as condições. Senão, resta-nos o consolo de os ver lá com dignidade e, esta, ninguém pode pôr em causa. Que ninguém se sinta envergonhado!
Para a história ficam as medalhas de ouro para Nelson Évora (não vou esquecer o abraço emocionado depois do seu último salto àquele que de vizinho quando chegou de Cabo Verde passou a treinador, João Ganço, a ele se deve muito o êxito) e de prata para Vanessa Fernandes (numa palavra, BRILHANTES). Mas todos os atletas portugueses, pelo esforço, dedicação e ambição ganham a medalha de diamante, são os heróis nacionais.
As piores reacções tiveram o epicentro a partir das declarações de Marco Fortes após o seu mau resultado. No momento achei as mesmas um pouco despropositadas mas rapidamente percebi que o homem por detrás do atleta usou o sentido de humor para mostrar a sua frustração. Agora deu para perceber que em Portugal, para além de se atirar pedras logo ao primeiro desaire, também há muitas “flores de estufa” que se melindram muito facilmente. Haja sentido de humor, precisamos de mandar embora o cinzentismo estampado no rosto deste povo. Os sorrisos combinam melhor com as belas paisagens deste pequeno rectângulo ajardinado …
E o que será mais grave? As declarações do lançador do martelo ou do Presidente do Comité Olímpico Português que num momento diz que se vai embora e depois do resultado do Nelson já fica? Isto soa a “agarrado ao tacho” independentemente das competências que tenha até aqui demonstrado… A nossa atleta de salto Naide Gomes entrou na prova (pouco depois das declarações de Vicente Moura) visivelmente nervosa mas Presidente é Presidente e por isso não se questiona o timing completamente despropositado utilizado para fazer balanços.
E se fossem atletas lusos a deixarem cair o testemunho na prova de estafetas como aconteceu com a equipa norte-americana feminina, ainda por cima uma repetição do sucedido nos jogos anteriores?
Às vezes até é positivo não se ser muito patriota para se olhar para certas coisas com isenção e objectividade. É que, apenas um pormenor a acrescentar a tudo isto, esta foi em termos globais a melhor participação de sempre de uma delegação portuguesa numas olimpíadas. E esta, hein? Um abraço ao eterno Fernando Pessa, a quem roubei a sua tirada final de cada reportagem!
quinta-feira, 17 de julho de 2008
From London with Love
E finalmente um apontamento digno de um verdadeiro sortudo, o tempo esplendoroso que encontrei contrariando as habituais expectativas que pairam no ar quando se diz I'm going to London...
sexta-feira, 11 de abril de 2008
Quem sonha fica mais perto de alcançar
Ter uma turma assim ajuda-me a crescer como professor mas, acima de tudo, como ser humano. Proporcionaram-me grandes momentos de humor mas também me presentearam com a vossa entrega, perseverança, sabedoria, com a vossa humildade... Por isso, posso dizer que hoje sou um homem mais rico (com carteira nova e tudo :-))))
Termino com um poema de António Gedeão que se transformou na célebre música de Manuel Freire, que vos dedico porque a letra encaixa plenamente na forma como eu vos vejo a chegar à escola com o caderno debaixo do braço.
Obrigado por terem passado pela minha vida, de forma breve mas marcante! Um bem-haja a todos...
Pedra Filosofal
Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.
Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.
Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.
Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida,
que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.
terça-feira, 8 de abril de 2008
Viagem por grandes obras...
Mas retomando as grandes obras, foi óptimo deambular com Eurico (guerreiro visigodo de Alexandre Herculano que se converte em Presbítero ao ver-lhe negado o amor a Hermengarda) de Toletum (Toledo) até aos cerros escalvados do Calpe (Gibraltar) de onde se avistavam bem perto os cimos das torres de Septum (Ceuta); dos campos de guerra da região de Híspalis (Sevilha, na altura dos romanos também conhecida por Rómula) até ao refúgio (Covadonga) das Astúrias onde não aceitou resignar-se. E que dizer do tresloucado Amor de Perdição de Simão por Teresa de Camilo Castelo Branco que os leva de Viseu até ao enclausuramento no Porto? E as Pupilas do Senhor Reitor (Margarida e Clara) de Júlio Dinis com as suas vivências cruzadas com Daniel no Alto Minho. E, obviamente, não poderia faltar o amor incestuoso de Carlos e Eduarda em "Os Maias" de Eça de Queirós, obra em que o escritor não poupa a decadência moral de então da 'alta' sociedade da capital e não só. Resta dizer que muito do que estes homens nos legaram através dos seus livros mantém-se actual, para o bem e para o mal...

Agora que este vício me invadiu, estou já a preparar a minha próxima viagem no tempo que pode ir desde A Cidade e as Serras ao encontro com A Morgadinha dos Canaviais e aproximar-me da actualidade com Mau Tempo no Canal, A Selva, Aparição, Memorial do Convento, A Sibila e tantos mais...