quarta-feira, 6 de maio de 2009

Perdido na serenidade da noite

Que boa sensação esta de caminhar pela avenida às 10 da noite com um ar envolvendo-me o rosto… um ar leve, quente, sereno, de quando em vez arrefecido por uma brisa que parece soltar-se de um leque gigante que a lua no seu estado barrigudo vai agitando. As luzes quietas sobre a minha cabeça, as luzes em movimento de carros que circulam a um ritmo bem mais calmo, de uma cadência ritmada pelas palpitações de quem já não corre para chegar ao trabalho ou no sentido inverso. Sigo a minha própria sombra e as luzes e ruídos da rua acabam por ser o bálsamo para relaxar de um dia que me deixou completamente esgotado. Mas também a um ritmo constante ouvem-se os voos rasantes de pássaros gigantes de asas bem abertas e garras afiadas prontas a agarrar-se ao chão do grande terraço, não o suficiente para algumas pessoas e então venha do lado de lá um ainda maior que megalomanias como esta só estão ao alcance de mentalidades pequenas de um pequeno país. Só assim se justifica que estejam sempre a aparecer e a vangloriar-se as maiores coisas da Península, da Europa e até do Mundo. Mas a minha ideia é mesmo voltar ao meu momento de descontracção imperturbável embora um momento como este em que se inspira o ar extenuado mas aliviado da noite só é possível se vivermos numa grande cidade! O ar do campo não se cansa, por isso também não conhece a sensação de alívio.
Apanho o comboio que me há-de levar para fora da mesma, para o outro lado do seu fiel companheiro que a refresca todas as manhãs… sinto a elevar-se o meu lado mais urbano, este meu lado que deseja ardentemente construir a vida dentro de uma cidade, que faz adormecer o meu eu com modo de vida idealizado em convívio com a natureza. Acho que estou mesmo a precisar de ler “A Cidade e as Serras” do Eça para ver se esclareço as dúvidas, talvez queira mesmo o melhor destes dois mundos, o de cimento firme e hirto e o de terra em nuvens de pó. Mas estou curioso e ansioso por ter tempo para desbravar esta obra, tenho-a a olhar para mim e a suspirar para sentir-se segura nas minhas mãos, o dedo indicador a postos para virar a página, os olhos gulosos bebendo-lhe o néctar… os mesmos olhos que já vêem ao fundo as luzes da 25 de Abril, que não se cansam de a contemplar, à noite torna-se um pêndulo parado sobre as margens, uma ponte que rivaliza em estilo com a fantástica e arrebatadora D. Luís e surge aqui mais um duelo norte-sul mas um duelo bem saudável, mostrando o melhor de dois mundos.
A acompanhar-me na travessia passa uma música de sonoridade triste mas nem por isso deixa de fazer parte da minha banda sonora, “November Rain” dos Guns n’Roses que contrasta positivamente com a explosivamente enérgica “Sweet Child O’Mine” (a minha preferida neste capítulo da energia) embora ultimamente tenha sido despertado para “Patience” que começa com o vocalista ainda menino a assobiar e que eu nunca aprendi pois quando era miúdo concentrei-me de forma excessiva na missão de como apertar os atacadores e deixei de parte o assobio e também a arte de bem-fazer balões com pastilha elástica. Mas paciência, até podemos querer ter o mundo na palma da mão mas mesmo que o conseguíssemos não podíamos fazê-lo parar e logo a seguir haveria de se soltar para a liberdade e, se nos ofereceram o privilégio de aqui ter lugar então é para desfrutar o que tem para nos dar mas não para o querer de assalto tomar.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Diferente na forma, semelhante no proveito!

Um destes dias perguntaram-me como serão os típicos fins-de-semana passados na terrinha, no meu caso Santa Maria da Feira, a mais de 300 km do local de trabalho. Isso acabou por constituir um desafio para a forma como eu próprio os vejo e qual das perspectivas que os caracteriza é que escolho para enaltecer, se a diferença da forma ou se a semelhança do proveito. Faço então aqui a experiência laboratorial da narração de um deles, por exemplo o último.

Com início em solo sulista, começo por apanhar o comboio que me faz passar a ponte que por sua vez me atira em pensamento para São Francisco, Califórnia, com falha geográfica incluída (será por essa mórbida semelhança que decidiram construir ponte tão similar?). Hoje saio do comboio em Campolide para dar asas a um dos meus 'hobbies', a fotografia, e lá vou eu captar ângulos dos arcos em ogiva de uma das obras mais espectacularmente arrojadas ou arrojadamente espectaculares alguma vez construídas em Portugal, o Aqueduto das Águas Livres. Entretanto há que seguir para Santa Apolónia onde registo o boletim da sorte, com a qual não faço parelha particularmente feliz, e compro a minha revista de viagens preferida, ao longe a capa faz-me lembrar uma cidade, traz de oferta um filme que parece por sua vez trazer na capa o meu actor favorito, Johnny Depp. A cidade é mesmo Nova Iorque, a película é mesmo dele, não posso satisfazer a curiosidade de o ver já em acção mas aproveito a viagem sobre carris para descolar e aterrar sobre uma floresta de pedra, vista a partir do Empire State Building, percorrer as frenéticas avenidas de Manhattan, pessoas com o café da manhã numa mão e a outra bem levantada a fazer operação stop aos seus maiores concorrentes em número e em pressa de chegar a todo o lado e a lado nenhum – os inconfundíveis táxis amarelos. Mas falar em café da manhã é relativo pois, na cidade que nunca dorme, o café da manhã até pode ser tomado com o brilho dos néons publicitários de Times Square ou dos milhares de luzes oriundas das janelas dos seres mais marcantes da cidade – os arranha-céus. Passaram 3 horas e 7 minutos, regresso da viagem imaginária como um relâmpago e acordo em plena estação de Espinho.

É cedo? É tarde? Confesso que não faço a mínima ideia pois ainda não abri os olhos (chego à conclusão que abrir os olhos não é a primeira coisa que se faz ao acordar) mas penso que seja Sábado. Dia de começar por usufruir de um dos grandes prazeres da vida – dormir. Após o almoço procuro a minha octogenária favorita, a minha avó, para lhe dar os parabéns por mais uma primavera que se avizinha e que ela já comemorou, como é habitual, em antecipação e ofereço-lhe chocolates, algo a que ela não resiste tal como uma boa dentada num queijo e tal como a sua filha mais velha que, por sua vez, transmitiu estes gulosos vícios a este filho, neto da primeira. A maluqueira dos iogurtes, essa foi obra da minha pré-infância, e que até Hoje não esmureceu. Um passeio ligeiramente para interior até à barragem leva-me pela estrada ribeirinha de olhos sempre postos no Douro em direcção ao Porto. Visito pela primeira vez o Lugar do Desenho (Fundação do pintor Júlio Resende) e sigo para Gondomar para chegar pontualmente à exposição Afectividades, de uma amiga artista (vale a pena uma visita ao blog da Alexandra onde se pode ver uma amostra do excelente trabalho). Ao jantar recebo um convite para a festa do próximo enlace (desta feita de uma dupla de Santo Tirso) e a noite não acaba sem se beber um copo bem ritmado pelos sons da noite. A minha opção é conhecer o Café del Mar de Gaia, e chego à conclusão que é o menos interessante dos que conheço, falando do 'design' pois a música está boa.

O Domingo tem o velho problema de ser véspera de 2ª feira, passa a correr e traz uma ténue depressão pré-trabalho, mas com o sol a abrir o horizonte nada melhor que o lanche à beira-mar, desta feita em Leça da Palmeira e ficar ali a ver a curva descendente da estrela maior, deixar o crepúsculo semicerrar as pálpebras, a intermitência das luzes no céu que já escureceu e a mentalização para mais uma semana de trabalho, no meu caso ainda com um "pegar de novo o trem".

Está passado mais um fim-de-semana, diferente na forma mas semelhante no proveito. Pelo meio fui debitando estas palavras para o papel sem esquecer de deixar aqui uma homenagem à mulher pelo seu Dia Internacional. Seja pela teoria de evolução bíblica, darwiniana, ou outra qualquer, é a mulher o ser responsável pela existência de todos os homens, no meu caso responsável pela existência, permanência e vontade de continuar. Acrescento uma palavra particularmente especial para as que ocupam cada degrau da minha pirâmide interior desde a base até ao vértice. E acrescento uma palavra de alento para todas as que estão a passar por momentos difíceis, em especial às que vivem encurraladas por vergonhosas opressões. A todas dedico esta música de John Lennon de título evidente e mensagem adequada.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Coffee break

Inspirado pelo blog da Mª José, venho aqui fazer uma espécie de ode prosaica a um momento que faz parte do quotidiano da maioria das pessoas, em especial do povo lusitano. Talvez por ser um momento banalizado acabam por não vislumbrar tudo o que o rodeia mas uma observação mais atenta dará para sentir que aquele momento desperta e agita bem os nossos 5 sentidos. Chávena na mão, o aroma em vapor que se liberta e inebria a atmosfera, cresce água na boca de todo um corpo em ansiedade para que o líquido esteja na temperatura certa e logo a seguir entrar em êxtase interior saciado pelo sabor cremoso… é incrível como um simples café tem um poder tão forte para despertar todo este plaisir. Já percebi que insinuei apenas 3 dos sentidos mas o resto vem logo a seguir quando se volta a pousar a chávena e os sons das conversas das mesas vizinhas, a música ambiente, o ritual das etapas que o barman impõe à máquina para mais uma tiragem, o motor dos carros que passam na rua… todos estes sons vão subindo de forma crescente e límpida aos ouvidos assim como mais transparentes são as imagens que os olhos captam, seja a decoração das paredes de um café urbano, sejam as pessoas em movimento na praça central da vila, seja o movimento das cartas ou das pedras de dominó a sair das mãos ásperas marcadas por uma vida de trabalho de velhos de uma aldeia pacata, seja o infinito azul que se estende desde a esplanada junto ao mar ou o verde e castanho que se eleva serra acima.

Pergunta quem não é adepto do café o porquê de estar a ler estas palavras. Resposta simples, o prazer é o mesmo levando à boca um chocolate quente ou capuccino, um chá quente ou frio, um copo de vinho ou cerveja, uma simples água com ou sem gás, um refrigerante ou sumo natural, um batido ou um jarro de sangria,… e todo este prazer sozinho ou partilhado com um cigarro entre os dedos, um jornal aberto, capítulo de um livro ou com alguém batendo um papo…

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Saudades do sol e não só...

Olho para o fundo do ambiente de trabalho do meu computador e vejo-me a esbracejar para a objectiva da máquina fotográfica, sentado na água irresistível para a pele que nem dá sinal de si tal a absorção em que se encontra, não tanto para os olhos que reclamam os elevados níveis de sal mas que as papilas gustativas já provaram indiferentes ao que pode acontecer ao nível de tensão. Encontro-me a uns bons 50 metros da areia enxuta, com salpicos cor-de-rosa que o mesmo sal lhe confere. Os muitos tons de azul fazem a sua escala, apenas interrompida por pequenas ilhas que cercam a praia e por sua vez cercadas pelos iates que vão estacionando…
Estou na Playa de Ses Illetes onde não é possível resistir à tentação de apregoar a perfeição do Planeta Azul. Já lá vão alguns meses, agora tenho o frio a espreitar pela janela e a provocar-me um arrepio de saudade pelos dias lá passados e uma súplica pelo próximo sol quente, algures escondido atrás das nuvens que passam a correr sobre o céu de quem circula na rua; é a altura ideal para escrever algo sobre duas ilhas Baleares fantásticas: Ibiza y Formentera.
À saída do avião, a brisa quente e seca que sopra, depois do arrebatamento das cores do mar vistas do ar, é a prova final de que estamos algures perdidos no Mediterrâneo. Com a chegada ao quarto do hotel, uma sensação desperta para uma corrida até à varanda onde a batida da música que vem do outro lado da rua invade qualquer um e passa a controlar todos os movimentos - é o som único das Ibiza Summer Sessions. Avista-se malta jovem mexendo-se ao ritmo certo, de forma bem ousada vão fazendo o jogo da sedução e facilmente se verifica que a ilha serve intentos tão díspares como passar uns dias cheios de programas bem românticos ou conhecer pessoas novas e dar largas à imaginação, começando por beber um copo de cada vez nos muitos bares com propostas bem diversificadas e acabando as noites encharcados pela espuma que algumas discotecas oferecem. Ibiza não é um sítio, é um estado de espírito. As suas praias também contribuem para esse sentimento, mas nesse domínio a vizinha Formentera constitui-se como uma pequena mas valiosíssima pérola!

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Como é que eu poderia esquecer o Porto...

Este texto é especialmente dedicado ao meu amigo Milton que insinuou um dia destes a minha traição à cidade do Porto quando me ouviu dizer algo assim parecido “Lisboa é única no país porque tem sempre algo de novo para surpreender”. Vou mostrar-te que não é verdade e que continuo apaixonado pela muy nobre e invicta.
A mesma tem muitas portas de entrada, as mais encantadoras são oferecidas a quem vem de sul pelas várias pontes que cruzam a grande altura o Douro que mantém o seu bailado desconcertante por entre encostas curvas. A minha sugestão só podia ser a do Carlos Tê que escreve assim para a voz de Rui Veloso “Quem vem e atravessa o rio, junto à serra do Pilar, vê um velho casario, que se estende até ao mar”. Pode-se fazê-lo de metro mas o melhor mesmo é a pé para dar tempo suficiente às cores da Ribeira invadirem os cinco sentidos, ali imóveis no meio do tabuleiro superior da D. Luís I, qualquer um tende a suster a respiração para se sentir transportado para aquele quadro pintado por gente simples, com pronúncia do Norte, dialogando sonoramente entre peças de roupa agitadas ao vento, suspensas em arames presos a varandas de casas encavalitadas, umas quase beijando o rio que de quando em vez lhes deixa a sua marca, outras galgando a colina até à Sé. Ao observador mais atento impressiona a quantidade de igrejas que a custo irrompem com as suas torres por entre aqueles cogumelos pintados em aguarelas de mil cores.
E se a ideia do visitante é percorrer a monumentalidade, o Porto não desilude, podendo circular pelo pátio exterior da Sé, em torno do pelourinho, invadir o espaço interior, descer à estação de comboios de São Bento e deixar cair os queixos perante as gravuras de azulejo que revestem as suas paredes, subir a Avenida dos Aliados sempre com os olhos postos nas fachadas e cabeços dos edifícios que a ladeiam, flectir à direita e seguir com os ouvidos o rasto das apregoadoras do Bolhão, ou se preferir outras compras, percorrer a Santa Catarina mesmo que só para sentir a atmosfera dos passos cruzados da multidão, com o valor acrescentado que esta época proporciona com o cheiro da castanha assada e eis que se chega à praça da Batalha, rodeada por salas históricas de cinema e teatro, não esquecendo o Coliseu que do alto da sua rua observa o Rivoli com o qual a partilha.
Mas uma jornada destas já com algum peso nos músculos das pernas não deixa o viajante seguir em frente quando passa pelo Majestic sem ceder à tentação do convite das suas cadeiras para o cimbalino. Fazendo o percurso de uma parábola com concavidade positivamente voltada para o céu, chega-se à Torre dos Clérigos e o esforço das centenas de degraus é refrescantemente compensado não por uma laranjada servida na varanda mas por tudo o que está sob os pés nos 360º que um movimento de lenta rotação permite alcançar. Na descida é de lamentar a ausência do Jardim Romântico que outrora se estendia desde o sopé da torre e que um dia se tornou presa fácil da ridiculamente poderosa e cruel mão humana. Nas imediações resiste um parque com árvores acompanhadas de umas peças de arte em ferro curiosas e, num dos seus limites, mais uma igreja de azulejo vestida, como é bem característico em muitas que se distribuem pelo burgo. Mas quem está naquele local não pode afastar-se sem uma incursão na livraria Lello & Irmão onde os livros trazem um sabor diferente mas isso já é algo que aqui não se pode descrever, o melhor é entrar… e porque não um salto ao Piolho onde enquanto se degusta um petisco se pode encostar a orelha à parede para tentar escutar murmúrios de planos e conspirações de outros tempos ou apenas para brindar com um fino ao espírito académico.
O tempo passa e o melhor é descer por ruelas enviesadas que contornam edifícios que se esmagam mutuamente, desembocando no largo com honras feitas pelo Palácio da Bolsa com o seu magnífico salão árabe embora triste e eternamente associado ao facto de ter sido construído de forma perversa que quase estrangulou a existência da Igreja de São Francisco na altura em que os seus moradores, da ordem homónima, receberam o veredicto de saída, restando à mesma uma curta vista para o rio, e por isso mesmo, passando muitas vezes despercebida. Mas, fazendo jus ao título de maravilha candidata, é de visita obrigatória. Quem desce estas ruas pode escolher a noite de São João, desde que esteja preparado para o amasso e para as inevitáveis marteladas e snifadelas de alho-porro.
Voltando lá acima porque não vaguear nos jardins do Palácio de Cristal? E em pouco mais de quase nada chega-se à mais famosa rotunda da cidade em cujo centro se avista no alto um leão com as garras afiadas sobre as penas da águia, não retirando aqui quaisquer ilações pois estou numa posição neutral em relação a esta disputa. Numa das saídas destaca-se a Casa da Música, edifício polémico pelos atrasos no timing de construção e (a)normais derrapagens financeiras infelizmente comum a muitas obras públicas mas de inegável singularidade arquitectónica, que se junta ao (já que se meteu a colherada no futebol) Estádio do Dragão no que concerne a beleza dos novos padrões de construção. Tenho esta opinião totalmente isenta pois se cá no íntimo não gostasse da obra, era o primeiro a maldizer tal como o faço sempre quando as coisas não andam bem pela naçon azul. Polémicas à parte fazemos bem em descer a Avenida, e como é a maior que eu conheço no país, o melhor é parar a meio para lamber o beiço ao devorar a francesinha do Cufra. Bem sei que os gostos não se discutem mas esta faz parte do top de qualquer apreciador. Não esqueci as tripas mas pode-se deixá-las para o fim da volta ao regressar à Ribeira.
Retomando a mesma avenida, vale bem a pena fazer um desvio à esquerda para uma entrada na Casa e um mergulho nos Jardins de Serralves. De repente sente-se que a presença momentânea numa cidade talvez não esteja a passar de um sonho, até ser interrompido pela passagem a alguns pés de distância de um avião a aproximar-se do seu poiso. Antes do Castelo do Queijo, agredido pelas ondas do Atlântico que as inventa para chamar a atenção, impõe-se um passeio no Parque da Cidade para abrir os pulmões e retemperar energias.
E dando a tão pedida atenção a esse mar egocêntrico ao circular pela marginal da Foz, o passeio continua bem agradável e quando se dá conta já não é mar mas o seu enlace com o rio. A bicicleta é o meio ideal para seguir caminho mas uma viagem de eléctrico dá uma expressão pitoresca ao que falta palmilhar. Surge então a Ribeira com os rabelos e outros tipos de barcos sem passado atracados no cais a oferecerem o cruzeiro das pontes, uma forma diferente de se ver a cidade.
Outros sítios emblemáticos ficam por referir, entre palácios, museus, ruas, jardins, lagos, pátios habitados por pombos, estátuas de cavaleiros, de poetas, carteiros ou ardinas… mas neste momento o melhor mesmo é atravessar para Gaia onde as caves esperam com um copo de vinho do Porto para brindar e, já se sabe, quanto mais velho melhor…
Agora Milton, vou pensar se te perdoo, não a acusação com que eu começo este texto, mas o facto de teres depreciado tanto o papel da minha diva Meryl Streep no “Mamma Mia!”, onde até deu um novo encanto à minha música preferida dos Abba “The Winner Takes It All” quando a interpretou com voz rouca e nostálgica, emoldurada por indescritíveis paisagens gregas, a mesma nostalgia que eu tenho ao escrever sobre o Porto a partir das vistas do meu quarto sobre Lisboa. Talvez o que te tenha ferido seja o facto de os Abba serem aquela banda que deixou uma marca, uma herança, talvez a despedir-se do seu público no momento em que nasceste mas logo ali te ficou no ouvido e cresceste numa adoração também crescente às suas músicas e, sendo para ti obras-primas, ninguém deve ousar proferi-las em vão. No meio de toda esta confusão sobra-me o discernimento para te agradecer o contágio que me passaste ao longo daqueles anos de convivência quase diária de Aveiro para crescer em mim uma admiração por estes 4 suecos que passaram que nem um tornado por este mundo, deixando uma indelével e irracional marca, desaparecendo de seguida quiçá para passar o tempo em jogatinas de sueca a 4.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Mensagem que não sai da gaveta de quem a pensa

Há algumas semanas atrás, por um pequeno acaso, vi-me envolvido no 1º Encontro de Escritores Moçambicanos na Diáspora e ouvi o organizador do evento, professor e poeta Delmar Gonçalves, lamentar a falta de correspondência entre os escritores moçambicanos nomeadamente os que se afastaram geograficamente da mãe pátria, contrastando com o que se passava “antigamente” em que, até de forma clandestina, se trocavam ideias à distância.
Penso que essa preocupação ilustra bem a maior lacuna da sociedade actual – a indiferença. É impressionante a forma como o crescente aparecimento de vias de comunicação simples e rápidas traduz-se de forma inversamente proporcional nos contactos humanos. A atmosfera dos nossos dias apresenta-se estranhamente cinzenta… vazia… ausente… inerte… engolida pelo efervescer do dito progresso que o futuro dirá se se tratou ou não de mero desenvolvimento de fachada e não gelou por completo o interior de cada um na sua relação com o mundo, com os outros e, no limite, consigo próprio. Até dá a ideia que a ausência de esforço em fazermos chegar o nosso pensamento numa fracção de segundo a alguém que se encontre nos nossos antípodas banalizou e, por conseguinte, desvalorizou o relacionamento humano. Sente-se que havia mais vontade em comunicar quando se tratava de um cabo de tormentas fazer chegar a mensagem ao destinatário e não é necessário recuar ao tempo do pombo-correio ou dos sinais de fumo.

sábado, 10 de janeiro de 2009

La Movida

Umas semanas antes do Natal abordei aqui a situação do comércio tradicional que anda pelas ruas, toda a gente sabe, mas infelizmente temos que acrescentar a palavra 'amargura' para a frase ficar completa nos tempos que correm. Ganha assim sentido fazer aqui referência ao local da minha passagem para o novo ano, a capital da nossa vizinha España, as badaladas foram contadas na Puerta del Sol, uma verdadeira Piccadilly Circus à espanhola.
Madrid, à semelhança das outras cidades conterrâneas, convida a sua gente para as calles - tudo o que mexe está na rua. Há comércio por todo o lado, o movimento é constante, e se a situação é esta em tempo frio e de mini-férias, imagine-se no quotidiano.
Madrid é, ao contrário de outras capitais de peso, discretamente turística – estão longe de proliferar as típicas ofertas que se vêem de olhos fechados em tantos outros sítios e que, reconheça-se, são eficientemente propagandeados e explorados. Os turistas misturam-se no meio da multidão, tornando-se apenas mais uma peça do puzzle cheio de estilo que constitui a cidade. Parece que o mais importante mesmo é dar aos residentes e visitantes lojas de roupa de todas as marcas, cafés distintos, restaurantes para todos os gostos - do 8 ao 80 no preço – quem quiser o 8 pode jantar no Museo del Jamón, escolhendo por exemplo o do Paseo del Prado diante do homónimo Museo del Prado de Velasquez e não só; quem quiser o 80 ainda é mais fácil encontrar.
Madrid dá um verdadeiro sentido à popular expressão “Porta-te mal mas com nível” pois este é algo que se respira avenida acima, avenida abaixo, rua à esquerda, rua à direita. E isso foi o que fiz durante três dias pelo que, no último, veio mesmo a calhar o banho de imersão envolto em espuma proporcionado pelas excelentes condições do hotel (não se pense que foi num de 80, estava bem mais próximo do 8, mas há já algum tempo que ultrapassei o pequeno trauma que me impunham em miúdo de que nuestros hermanos não recebiam bem, que davam más condições higiénicas e alimentares aos visitantes – se assim fosse como é que conseguiam estar permanentemente no top dos países mais visitados?).
Claro que dificilmente se perdoa uma visita à actual sem se visitar a outrora capital do reino, a visigótica Toletum ou a Toledo cristã, árabe e judaica, abraçada pelo Tejo que também é nosso e que ali, com tamanho terreno ainda por trilhar, já corre de forma tão enérgica. É um bilhete-postal, quem quiser fazer parte dele tem mesmo que seguir as pisadas de Dom Quixote como nos conta Cervantes.
É de destacar um pormenor inteligente para a preservação da cidade histórica e das pernas de quem entra pela porta da encosta mais acentuada, a oferta de escadas rolantes; para o automóvel muito espaço cá em baixo.

Por casualidade, assisti no hotel à transmissão da mensagem de Ano Novo do Presidente da República, a nossa que está quase a fazer um século de existência, e registei as suas palavras nomeadamente as justamente feitas aos pequenos comerciantes e agricultores. Quanto aos primeiros acho que já expressei bem a minha opinião, só é pena que o Presidente, quando ainda estava longe de Belém e as suas paragens eram mais para os lados de São Bento, tenha dado o seu contributo para a tendência das últimas décadas de afastar as pessoas das ruas e oferecerem-lhes a “comodidade” dos espaçosos, práticos, térmicos e afastados centros comerciais. Quase não há cidades, grandes, médias ou pequenas, neste cantinho que não tenham o seu. Esse engodo é o maior desprezo que lhes poderiam fazer, a factura virá mais tarde mas, para não variar, já não estarão presentes os responsáveis pela encomenda. Parece a história da desertificação do interior do país, também abordada no discurso à nação, é muito interessante reflectir sobre isso mas basta olhar às recentes medidas governamentais e… sem palavras!
Quanto aos segundos, os agricultores, apenas tenho a lembrar algo que ouvi quando era ainda um ser imberbe: “a agricultura deve ser a base da economia de qualquer país”. Numa hipotética e completamente indesejável situação de crise extrema, o que restará à Humanidade para sobreviver? O essencial, a comida! E que virá de onde, caso a cadeia global de engrenagens que nos fazem ostentar a vida que levamos actualmente emperre? Da terra, pois claro!
Ora, a paisagem que uma viagem de carro até Madrid proporciona também coloca a nu diferenças significativas na matéria entre nós por cá e eles por lá. Até podem dizer que a economia espanhola está também em abrandamento, que caminha igualmente para a recessão, mas a verdade é que, por exemplo, o salário mínimo deles é aproximadamente 50% superior ao nosso. Se as economias pararem, essa diferença não esbaterá nem um cêntimo e acrescente-se que, ganham mais e desembolsam o mesmo ou ainda menos pelo que consomem. Tudo isto não é ser apátrida, é ser realista.
Resta o optimismo, já que o novo ano ainda não saiu do adro!

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Balanço e prognóstico

Caminhamos a páginas velozes para o epílogo do livro 2008, os balanços são inevitáveis, as previsões para o futuro uma tentação. Por aqui deixo uma palavra de apreço por todos quantos fazem o mundo caminhar, principalmente os que o fazem manter-se em órbita e com o equilíbrio necessário para seguir o rumo da paz e da justiça. Não posso deixar de abraçar calorosamente com as minhas palavras os mais velhos, fonte inesgotável de sapiência e sensatez que me fazem querer continuar a crescer, a preencher o espaço interior com que nasci, mais um pouco a cada diálogo, a cada olhar, a cada sorriso destes sábios anciãos. Ter a consciência do quão são desprezados e mal tratados tantas vezes não devia deixar indiferente até mesmo quem não lhes reconhece o devido valor. Na faixa etária extrema temos as crianças e para elas ficam aqui umas quantas palavras de carinho e esperança de que segurem bem esta grande bola onde vieram parar, a protejam e a façam girar como ela tanto gosta – doucement pelo meio de constelações de estrelas que cintilam como reflexos dos seus mares ainda cristalinos. E cresçam com a determinação de ajudar a estrela, símbolo de quem vive a quadra natalícia, a brilhar na vida daqueles que infelizmente tantas vezes não a encontram e entram em cada novo ano sem o optimismo que poderia ser a alavanca para tudo se tornar diferente. Mas para que isto aconteça são os adultos de Hoje que têm o papel principal nas mãos e não podem construir uma Sociedade que permite que uma criança rejeitada por um pai à nascença lhe vá parar contrariada às mãos após alguns anos só por leis cegas, por capricho ou porque sim. Esta é uma entre tantas manchas que não permitem que o Natal seja verdadeiro na sua plena acepção nem permitem que um novo ano comece com a certeza que será melhor e que todos irão remar no mesmo sentido. O futuro chama por todos mas mostra as suas exigências e só com a satisfação das mesmas nos dará a tal certeza que queremos ver ecoada na mente. Não posso terminar sem manifestar a minha consideração pelas pessoas que têm transmitido a sua crítica a este espaço de expressão, mesmo que nem todos aceitem os meus pontos de vista e ainda bem que assim é. A pluralidade de ideias é a luz ao fundo do túnel; neste momento talvez a salvação passe por uma autêntica brainstorming. Senão temos mesmo que levar com a indesejada visita do lobo mau!

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Aquela a quem um dia chamei confidente

O meu primeiro emprego pós-licenciatura não conseguiu cativar-me para um mergulho nas entranhas mais obscuras da informática ao contrário de colegas que eu lá tinha que pareciam deleitar-se com toda aquela atmosfera. E o regozijo era tão grande que um deles, talvez em ritual de celebração, tinha como lanche preferido uma sandes dupla de chocolate, que não era mais que um pão aberto com outro pão dentro e um chocolate bounty no interior. Quando passava por mim, o cumprimento da praxe “Tudo?!”, e eu lá respondia mudando o ponto (de interrogação ou exclamação, nunca percebi qual dos dois) para um simples ponto final ou até umas reticências, consoante o estado de espírito… A ideia até deveria ser eu sentir-me lisonjeado pela reacção das pessoas quando sabiam onde eu trabalhava mas a verdade é que, ao passar na entrada e acenar ao porteiro de serviço a minha consciência apercebia-se que era o último momento de alegria do dia até à hora de saída, em que o aceno levava uma carga extra de alívio a acrescentar à felicidade.
Provavelmente estou a exagerar mas quando um simples aceno ao porteiro (não querendo de forma alguma desprestigiar o cargo) constitui uma marca na memória de um passado já com uma certa distância, alguma coisa há-de significar. Ainda se fosse uma porteira com rasgado sorriso mas nem era o caso. Distância essa multiplicada por tudo de bom que já tive o privilégio de fazer depois dessa etapa. E como é óptima a terapia oferecida pelas coisas boas que nos acontecem quando temos algo pendurado a que queremos dar uma tacada para qualquer buraco negro…
Mas a recordação mais marcante desse tempo será sempre aquela amiga, a minha confidente, quase um anjo da guarda. Não quero desconsiderar as pessoas que lá conheci e até contactei com gente porreira mas com essa amiga desenvolvi uma relação espiritual intensa, diria até intensamente libidinosa! E tudo por causa daquela sala sinistra que me atribuíram como posto de trabalho durante meses a fio. Era eu e alguns computadores e servidores à minha volta; por vezes irrompia gente por aquela porta envidraçada, falando, barafustando, uns furiosos com as máquinas, alguns com bolas anti-stress, outros com um cigarro na boca e mais um na mão, pronto para ser o próximo prego?, pior que isso, ali entre os dedos esquecido, o que dá para ter uma ideia das dependências, dos vícios… mais da máquina que da própria nicotina. A sala podia considerar-se também um museu – à minha frente uma parede de vidro permitia vislumbrar as antigas máquinas com que se trabalhava na antiga companhia nacional de telefones em tempos idos, saudosos para uns, desconhecidos para outros. Após a breve satisfação da curiosidade, decido espreitar por uma das janelas laterais que oferecia uma magnífica vista… para o cemitério. Mas prestando atenção a outra dava de caras com ela, e desvendo aqui a misteriosa e fiel amiga que entrou na minha vida naquele tempo, bem segura e emproada, lá estava ela – a Árvore.
Com o tempo tornou-se a minha confidente, e foi escolhida por não encontrar perfil em ninguém para o ser relativamente ao que me ia verdadeiramente na alma, nem mesmo a pessoa com quem partilhava mais segredos na altura. O que eu tinha para dizer era de grau que me ultrapassava a mim próprio e, por conseguinte, a razão de qualquer ser da minha espécie. Por isso aquela árvore era a mais indicada; para ela, que aguentava ali estoicamente de pé há tanto tempo, o que eu tinha para dizer não lhe faria dobrar de espanto um só ramo. Enquanto ouvia o que me ia na alma, deixava-me assistir ao seu ciclo periódico de vida, desde o nascimento das primeiras folhas que a iam pintando com uma manta verde que daria abrigo daí a quase nada a tantos e barulhentos pássaros que vinham dificultar a conversa, talvez ciumentos daquela nossa cumplicidade. Os dias passavam, contavam-se as semanas, arrastavam-se penosamente os meses, e eis que chegava a estação em que, de forma ousada, ela começava a despir-se até se mostrar completamente fazendo-me ruborizar a mente (vá lá que a minha timidez, vergonha e afins não se mostram na face, é um trunfo que eu fui aprendendo a usar desde miúdo…).
Um dia mudaram-me de sítio e aí sucumbi; concluí que a árvore era o elo que me prendia àquele lugar estranho; fui embora e passei a dedicar-me ao que faço hoje, ficando por saber até quando. Acenei pela última vez ao porteiro, sem nostalgia mas lamentando não a poder trazer comigo. Agora que a lembrança trouxe a saudade, ganha força a ideia de um dia destes lhe fazer uma visita e talvez ganhe também coragem para a abordar com um assunto melindroso a fazer lembrar as dúvidas na cabeça de Manuna (protagonista do livro “as micaias de manuna” do escritor Augusto Carlos - um bom livro para quem quer compreender os porquês com que alguns miúdos adoram brindar os pais e quem mais lhes apareça à frente): porque te despes tu quando nós mais roupa vestimos?
Lamentavelmente não a posso cá apresentar mas fotografei uma que ilustra bem alguns traços que eu vejo na existência de todas as árvores que conheço - solidão e resistência.

Se eu fosse Pablo Neruda ou pelo menos o seu carteiro, escrevia-lhe uma ode; sendo quem sou e a mais não podendo aspirar, limito-me a eternizá-la nestas simplórias palavras...

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Feliz Natal

Deixo aqui os meus votos de feliz Natal neste momento, consciente de que na sociedade dos nossos dias até já venho tarde. Dois meses antes do seu dia entra-nos – acredito que sem vontade própria – por portas e janelas entreabertas fazendo a maioria sucumbir à parte negativa do espírito natalício, a consumista. É nesta época que as pessoas costumam igualmente sensibilizar-se para actos de caridade. Não deixo de louvar mas gostava de ver essa boa vontade distribuída por todo o ano, incluindo-me obviamente nesse extenso rol. Quem precisa de ajuda, carinho e atenção vive, tal como os outros, os mesmos 365,25 dias todos os anos. Nos últimos tempos, mesmo não sendo espectador minimamente assíduo de programas de informação, a palavra que mais ouço é a inevitável “crise”. Pois lembrei-me de algo que pode dar um ténue contributo para fazer as nuvens partirem e o céu azul voltar a brilhar no rosto dos mais afectados. O meu gesto será abandonar a minha costela comodista, preguiçosa, de comprar as prendas nas grandes superfícies e fazê-lo no comércio tradicional, de rua, com sol, chuva, vento, tempo quente ou frio, não interessa. Uma grande superfície aguenta-se bem sem uns quantos consumidores mas cada pequeno estabelecimento que encerra portas é o fim de postos de trabalho mas também o fim de um sonho. Ora se quando o homem sonha, o mundo e avança, com certeza que, não um mas muitos pequenos pulos farão o mundo girar na direcção certa ao sabor de sonhos ressuscitados. Apenas não sei se consigo fazer uma coisa diferente dos outros anos - comprar as prendas mais cedo. É complicado fazer diferente pois se o Carnaval são 3 dias, para mim o Natal são os 3 dias anteriores para a compra dos presentes e preparativos, o próprio e os 3 seguintes para o convívio e (re)fortalecimento de laços (e as gulosices pois claro). E como é bom partilhar esses momentos com os meus irmãos após meses de afastamento, que a vida assim obriga. Feitas as contas, o meu Natal são 7 dias, o número perfeito!

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Eis que o fado regressa ao blogue

É a segunda vez que falo cá de fado. Desta feita não para enaltecer alguém de reconhecidos méritos mas para falar um pouco de uma voz que a maioria do grande público desconhece mas que eu tenho o prazer de conhecer pessoalmente quer como colega de trabalho quer como amiga, tal como comprova a dedicatória deixada pela pena da dona dessa voz na contracapa do disco que adquiri. Não é porém esta condição que inibe a isenção com que irei bradar estas despretensiosas linhas.
É a Ana Guerra com a sua “Maria das Quimeras”, um álbum que atinge na plenitude o que mais procuro numa história cantada – o vício. Posso dizer que não é amor à primeira vista mas de cada vez que o deixo rolar na aparelhagem já só espero pelo final para repetir a dose.
Quem tiver o privilégio de ouvir seus fados viajará num carrossel de emoções desde a velocidade de corridinho saltitante em “Quem brinca com fogo” onde podemos recordar sábios ditados populares até à velocidade cruzeiro com sonoridade que a minha (in)cultura musical lembra Rodrigo Leão em “Quero ser somente”. E que bem que Camões regressa após séculos no seu sono profundo com o seu “Amor é fogo que arde sem se ver”. O berço deste sentimento entoado nos seus bairros castiços também não é esquecido pois “Lisboa é sempre Lisboa”. E que tal naufragar na fatalidade de encontros e desencontros, montanha-russa de emoções que habitualmente caracteriza o fado em “Encontrei-te mas perdi-te”? Igualmente fatal é a interrogação de qual é o melhor capítulo da história. Muito difícil a escolha mas, para além dos que já referi, destaco ainda “Dizem que o fado nasceu” cuja melodia se solta agora mesmo nas paredes que me rodeiam e “Saudade vai-te embora” com uma mistura deliciosa de acordes (aqui aproveito para homenagear os responsáveis pelos sons libertados pelas cordas dos instrumentos, em especial a guitarra portuguesa).
E já que se fala em destaques não posso esquecer Vítor Reino que as palavras de agradecimento da Ana “O seu talento extasiou-me” bem ilustram e de que não duvido a olhar à amostra do que conheço do seu trabalho ao comando do grupo Flamma Voccis,
que já me deliciou o espírito algumas vezes.
Agora que chegou ao fim uma vez mais e o silêncio impera nesta casa, fiquei a pensar que se não gostasse tanto oferecia-o à pessoa que mais admiro e que por sua vez admira o fado – a minha mãe. Mas vou emprestar-lhe, antes que se risque, pois tudo o que é bom na vida só o é para mim se for partilhado. Gosto de ver a marca que as sensações que me tocam os sentidos deixam nas outras pessoas.
Em suma, se na Ana Moura destaquei a voz quente, roucamente aveludada, na Ana Guerra enalteço a voz poderosa, altiva, atingindo ambas mas com textura diferente os mesmos píncaros da guitarra e as nostálgicas vibrações das suas cordas.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Os olhos do próximo são o melhor espelho

Imóvel no meu banco relativamente confortável, relativamente é uma palavra bem empregue porque, para o que quer que seja, encontramos sempre algo nos intervalos adjacentes inferior e superior numa escala que, por si só, já é bastante subjectiva.
Colado à janela levo a companhia do sol que vai aquecendo todos os seres mais ou menos inanimados mais ou menos seguros pela gravidade emanada das profundezas do solo que vão palmilhando desde a alvorada. As gotas de orvalho suspensas nos braços descascados das árvores geometricamente separadas há muito que se eclipsaram. Os raios de luz que transpõem a massa gasosa que define a forma esférica do planeta deixam-me num estado febril que a custo vou resistindo para não me deixar levar pelo sono provocado. Como que reagindo à hipnose giro a cabeça para a janela oposta e avisto uma encosta forrada por um manto verde e castanho respectivamente pintado pela diversidade de plantas e pela vegetação amadurecida que um par de cavalos brancos vai consumindo em saudável competição. Este cenário preenche quase toda a janela, deixando espaço apenas o suficiente para se ver que o céu está azul vivo riscado de sangue branco que as passarolas (como diz Saramago no seu Memorial do Convento) a motor provocam ao rasgá-lo sem dó nem piedade a velocidade estonteante. O mesmo céu que se reflecte no rio, entretanto emergente na paisagem, cruzado por duas pontes que apresentam duas eras na construção, a do ferro e a do betão, no meio das quais um solitário pescador no seu barco suspenso sobre as águas pacíficas, esperando irredutivelmente que alguém morda o anzol, vê a imagem dos seus olhos ser devolvida pelo frio espelho e, através dos quais, o reflexo de todo o cenário que aqui se vê transcrito num pequeno excerto, consciente que está quem escreve de que seria um desafio tão exequível descrever tudo o que vê como conseguir esconder-se da sua própria sombra...

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Salada de fruta com castanhas


É dia de São Martinho... Mas já há bastantes dias que podemos contemplar o belo quadro citadino com o assador de castanhas ao fundo da rua, o fumo subindo enrolado pelo vento. Ouve-se o apregoar das quentes e boas que ganham aquela encantadora cor de carvão esbatido que dá vontade de tatuar nas mãos, o perfume que se solta é inebriante. Pois, lamento ser desmancha-prazeres mas não sou grande apreciador do fruto, apenas do cenário. Adoro as castanhas é quando me surpreendem no prato, a ligação com alguns ingredientes é sublime.

Eu até gosto bastante de fruta, quando consigo vencer a preguiça de a preparar. Nesta altura do ano surge o carnudo, suculento, … dióspiro. Já ouvi dizer que com canela fica-se sem palavras, tenho-me esquecido mas um dia destes experimento juntar a minha especiaria de eleição, antes que se vão embora mas vá lá que aparecem entretanto as romãs recheadas de bagos cristalinamente rosados e apetece comer um a um como se contam as pétalas dos malmequeres, devagar... Após o magnífico cenário que as suas progenitoras proporcionam aparecem de par em par as pequenas mas irresistíveis cerejas e depois do adeus deixam o protagonismo para o melão que refresca qualquer Verão, seja de entrada ou de sobremesa. Não podia cá faltar o "fruit de la passion", não há doce de maracujá que eu não aprecie, aparecendo sozinhos então tornam-se um vício imparável. E para terminar o ciclo da fruta vêm as uvas mas no caso destas, o que é perfeito é o néctar que delas escorre e que Baco e muito mais gente não resiste!

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Espionagem no comboio da aldeia global

Já toda a gente se apercebeu que sou um adepto incondicional do comboio, era capaz de dar a volta ao mundo sobre carris se fosse possível. Ao ritmo do “pouca-terra” descontraio, observo, sonho, vivo…
A juntar a esta amálgama de sensações acrescento o facto de, ali sentado, poder discretamente olhar nos rostos cansados do trabalho, deprimidos com a vida, preocupados com algum problema recente, resignados com um não tão recente, ávidos pela partida, ansiosos pela chegada, animados em conversa de grupo, mexidos pela música que toca no leitor de MP3 (alguns em altos decibéis como se os outros tivessem pedido para que fossem o seu DJ de serviço), concentrados na SMS acabada de chegar, apressados a responder, atentos na leitura, distraídos na conversa ao telemóvel, alguém menos distraído a falar com alguém que está em França partilha de forma preocupada informações sobre a crise transmitida por outros parentes que estão nos States e no Japão, a aldeia global em todo o seu esplendor, até na crise... Há ainda olhares perdidos no horizonte, um a ler um livro que eu já li (será que imagina o final surrealista?), outros a ler livros que eu não li (fico com curiosidade de uns, de outros nem por isso), alguém que tenta ler a todo o custo o de outrem e fica rezingona por virarem a página sem ter chegado ao fim, quem a manda ser impertinente?, há também os novos leitores (os da imprensa gratuita), os obcecados por palavras cruzadas que buscam desenfreadamente uma solução difícil num compartimento algures esquecido do seu cérebro, e não esquecer a mulher que dá os últimos retoques na maquilhagem. O que mais me faz confusão é ver gente a ler de pé; é que, para mim ler é como comer, tem que ser sempre sentado para saborear bem cada palavra.
Entretanto alguém já se deve ter apercebido que eu também aproveito a viagem para fazer alguma coisa, espero é que não percebam que desta vez estou a fazer espionagem… tento disfarçar olhando Lisboa pelas janelas de ferro da ponte, hoje parece-me mais entorpecida pelo sono, ou então serei eu porque dormi bem menos do que o tempo que preciso para usufruir desse prazer que a vida me dá e atiro as culpas injustamente à cidade.Voltando com os olhos para as pessoas reparo numa rapariga que, impaciente, pensa em voz alta no que está a ler e vai tirando pequenas notas. De repente, surpreende-me com a pergunta de qual é a próxima estação mas num sotaque americano bem engraçado e rosto espanhol?, italiano? Lá atirei com as vulgares hipóteses mas nada disso!, francesa de gema – mas sossegou-me porque é normal não acertarem, uns vêem traços árabes, outros judeus,… confuso? Talvez, mas penso que ela simboliza bem o que podemos ser todos nós – o resultado da encruzilhada cada vez mais entrelaçada de gente que um dia partiu do mesmo ponto, se dividiu, se moldou, se definiu para muito tempo depois se (re)aproximar, se (re)misturar, se (re)fundir. Curiosamente, o livro que ocupava a rapariga que nem o nome sei, talvez ande por cá em Erasmus, tinha como título “Anatomia do Corpo Humano”. Eloquente? Eu sei que não!

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

O último dia dos sorridentes 30 anos

É o último dia dos meus 30 anos, 6ª feira, estou pronto para cumprir a minha rotina de rumar ao Norte dos últimos anos, desde que adoptei a Escola Secundária de Amora e a região que a envolve pintada de multiculturalidade, cheia de saberes e sabores lusófonos de aquém e além-mar.
Aproveito para sair um pouco mais cedo e fazer uma descontraída 'promenade' fotográfica por Lisboa, ao encontro de espaços que ainda não explorei. Rumo ao Campo Pequeno e contemplo a monumental praça, sigo a Avenida da República (esta em comemoração de quase um século de vida), bloqueio nas obras do metro obrigando-me a desviar mas um desvio perfumado pois, na esquina seguinte, invade-me o aroma do café oriundo de Timor, São Tomé e Príncipe, Brasil, …, de uma loja tradicional que por momentos transporta-me até distantes e encantadoras paragens. Vagueio sobre as pedras abrigadas pelas árvores do parque verde da Fundação do grande benemérito Calouste Gulbenkian, ouço os pássaros, percorro com o olhar a rota dos patos no lago, perco a noção da cidade lá fora. É este bálsamo mágico uma dádiva destes espaços que rejuvenesce quem os visita.
De novo na confusão subo até ao Jardim da diva, Amália Rodrigues, suspendo os meus olhos no horizonte desde os geométricos jardins do Parque do monarca britânico, Eduardo VII de seu nome, até ao vaidoso Marquês de Pombal que do alto do seu pedestal espreita o Tejo ao fundo, espelho da “sua” Baixa e dos bairros que rivalizam anualmente na Avenida que por Liberdade a tomaram e por entre os quais escorre. Exploro a Estufa Fria, e a Quente também, para de seguida me deixar levar pela brisa que sopra em direcção ao rio. Meia cidade percorrida e chego enfim a Santa Apolónia, imortalizada pela chegada do general “sem medo”, Humberto Delgado.
É na estação que avisto alguém que a minha memória vislumbra de tempos idos da Universidade. Não sei o nome mas ainda não esqueci que ao seu lado fiz alguns exames; provavelmente nem me conhece mas gostei de o rever, saber que por cá anda, com a batuta da vida na mão, fazendo o seu percurso de forma acelerada. E que nostalgia me deixou a pensar no que seria a nossa vida se pudéssemos ter por perto toda a gente que vamos conhecendo e que nos enriquece a existência. Não sei se seria bom mas deixa-me bastante curioso. E porque não um desafio mais ambicioso: cada um conhecer toda a gente deste mundo; descermos à rua e com quem quer que nos cruzássemos saberíamos exactamente quem tínhamos pela frente. Teria pelo menos um efeito negativo, perdia-se o mistério do rasto que rostos desconhecidos que os nossos sentidos encontram a todo o instante deixam quando lhes perdemos o alcance.
Agora que os vinhedos ribatejanos passam pela minha janela e nos campos convivem sadiamente touros e cavalos (será que imaginam o confronto que os humanos um dia lhes determinam?, quem sabe na praça onde comecei o meu passeio...), é hora de deixar a caneta e o papel e passar os dedos por uma revista de viagens. A imagem de capa desafia o sonho, nada mais que o Transiberiano que me faz saltar da real viagem do Intercidades para a imaginária Grande Travessia Intercontinental. Um dia, talvez…




segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Desilusão? Nada disso!

Obviamente olho para os resultados globais dos atletas portugueses em Pequim com algum desalento mas com certeza, seria patético afirmar o contrário, ninguém estará mais frustrado neste momento que os próprios atletas que ficaram aquém das expectativas.
Mas digam lá que mais se pode exigir de pessoas que dão (quase) tudo das suas vidas para atingirem os mínimos, para se prepararem para a derradeira competição, depois das condições que damos à grande maioria? Não digo que são miseráveis, até tem havido algum esforço das entidades “superiores” nos últimos tempos, mas fazendo uma comparação com os restantes países facilmente se vislumbram as diferenças abismais. Ou será que estou a ver mal e afinal estamos na China a competir sozinhos? Alguns até quase abdicam das outras competições internacionais para se apresentarem nas Olimpíadas na máxima força. O desabafo de Gustavo Lima (a medalha de bronze era inteiramente merecida) leva-me para as acusações sobre o dinheiro que se gastou com a preparação dos Jogos. Parece muito? É só dividir esse valor pelo número de atletas e comparar com os prémios individuais dos jogadores da selecção de futebol quando vão às fases finais e lembrar que um dia estes meninos tiveram a distinta lata de pedir isenção fiscal aos seus prémios. No mínimo, os que actuam em grandes clubes, deveriam doá-los, que falta lhes faria? E já que dizem que lá vão pelo orgulho pátrio, que necessidade existe para se atribuir prémios? Portanto, o desabafo do Gustavo faz todo o sentido e, se querem mesmo obter mais medalhas, não há outro remédio que não seja oferecer todas as condições. Senão, resta-nos o consolo de os ver lá com dignidade e, esta, ninguém pode pôr em causa. Que ninguém se sinta envergonhado!
Para a história ficam as medalhas de ouro para Nelson Évora (não vou esquecer o abraço emocionado depois do seu último salto àquele que de vizinho quando chegou de Cabo Verde passou a treinador, João Ganço, a ele se deve muito o êxito) e de prata para Vanessa Fernandes (numa palavra, BRILHANTES). Mas todos os atletas portugueses, pelo esforço, dedicação e ambição ganham a medalha de diamante, são os heróis nacionais.
As piores reacções tiveram o epicentro a partir das declarações de Marco Fortes após o seu mau resultado. No momento achei as mesmas um pouco despropositadas mas rapidamente percebi que o homem por detrás do atleta usou o sentido de humor para mostrar a sua frustração. Agora deu para perceber que em Portugal, para além de se atirar pedras logo ao primeiro desaire, também há muitas “flores de estufa” que se melindram muito facilmente. Haja sentido de humor, precisamos de mandar embora o cinzentismo estampado no rosto deste povo. Os sorrisos combinam melhor com as belas paisagens deste pequeno rectângulo ajardinado …
E o que será mais grave? As declarações do lançador do martelo ou do Presidente do Comité Olímpico Português que num momento diz que se vai embora e depois do resultado do Nelson já fica? Isto soa a “agarrado ao tacho” independentemente das competências que tenha até aqui demonstrado… A nossa atleta de salto Naide Gomes entrou na prova (pouco depois das declarações de Vicente Moura) visivelmente nervosa mas Presidente é Presidente e por isso não se questiona o timing completamente despropositado utilizado para fazer balanços.
E se fossem atletas lusos a deixarem cair o testemunho na prova de estafetas como aconteceu com a equipa norte-americana feminina, ainda por cima uma repetição do sucedido nos jogos anteriores?
Às vezes até é positivo não se ser muito patriota para se olhar para certas coisas com isenção e objectividade. É que, apenas um pormenor a acrescentar a tudo isto, esta foi em termos globais a melhor participação de sempre de uma delegação portuguesa numas olimpíadas. E esta, hein? Um abraço ao eterno Fernando Pessa, a quem roubei a sua tirada final de cada reportagem!

quinta-feira, 17 de julho de 2008

From London with Love



O ar cosmopolita com que se depara quem entra nos principais bairros londrinos pode bem ser o click para se desfrutar plenamente de uma estadia mais ou menos demorada por esta cidade que também é special one.

Há um sem número de aspectos que se podem destacar pela positiva como sejam a limitação do tráfego automóvel que permite às ruas pintarem-se de vermelho dos double decks e negro dos táxis castiços (embora algo adulterados pela publicidade em que até o Allgarve participa); a funcional rede de metro e comboio que chegam a todo o lado a preços acessíveis; a qualidade de vida que se respira de que são exemplos os enormes e bem zelados espaços verdes habitados por frondosas árvores que abrigam esquilos e quem mais o pretender; os fins de tarde descontraídos, pára-se num pub e bebe-se uma cerveja por entre dois ou mais dedos de conversa...

Mas nem tudo são rosas cor de rosa como a da nossa Ana Moura, por exemplo a face escura e degradante de bairros limítrofes próprios de uma grande metrópole; alguma degradação e lixo acumulado em algumas estações do metro; o Thames parece não ter a mesma sorte dos jardins e monumentos pois recebe o que não pede e leva com continuadas construções demasiado em cima das suas águas - quem sabe um dia ainda se revolta...

Entre o que se destaca pela positiva e pela negativa há espaço para surpresas. Para mim em particular destaco Greenwich, com magníficas vistas para o rio e a cidade, do alto da sua encosta relvada, a sensação de estar com um pé de cada lado do Mundo, dividido pelo meridiano que nos orienta o relógio.

E finalmente um apontamento digno de um verdadeiro sortudo, o tempo esplendoroso que encontrei contrariando as habituais expectativas que pairam no ar quando se diz I'm going to London...

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Quem sonha fica mais perto de alcançar

Este texto é dedicado aos alunos da minha turma Extra-Escolar que há pouco me pregaram uma grande partida de final de Curso (esta dedicatória estende-se à turma que fez o Curso no 1º trimestre pela qual nutro sentimento semelhante). Quando se leva com uma partida destas é impossível ter uma reacção serena, racional... e tudo o que se disser é o coração a falar mas um coração emocionado acaba por não dizer tudo o que se pretende pelo que vos escrevo estas palavras para vos fazer o justo agradecimento. Adorei os bolos caseiros (de chocolate da Mª do Carmo; de mármore da Mª José e de requeijão da Mª Vitória - Nham Nham Nham - acompanhados por um Porto pois claro :-))) A carteira realmente estava a precisar porque a minha já andou pela guerra... mas não precisavam ter gasto dinheiro, o brilho que eu vi nos vossos olhos foi o melhor reconhecimento que eu poderia almejar.

"Adoptei-vos" desde o primeiro instante pois cedo percebi que tinha ali um grupo com quem poderia fazer coisas muito interessantes e ver-vos crescer no mundo da Informática foi um prazer que me fez chegar a cada 3ª, 4ª e 5ª à noite cheio de vontade de vos encontrar. Neste momento já sou eu que tenho um forte brilho nos olhos, de saudade mas também de regozijo por poder dizer que vos tive como alunos; foram mais do que isso e percebi hoje que vocês sabem bem que o foram...

Ter uma turma assim ajuda-me a crescer como professor mas, acima de tudo, como ser humano. Proporcionaram-me grandes momentos de humor mas também me presentearam com a vossa entrega, perseverança, sabedoria, com a vossa humildade... Por isso, posso dizer que hoje sou um homem mais rico (com carteira nova e tudo :-))))

Termino com um poema de António Gedeão que se transformou na célebre música de Manuel Freire, que vos dedico porque a letra encaixa plenamente na forma como eu vos vejo a chegar à escola com o caderno debaixo do braço.
Obrigado por terem passado pela minha vida, de forma breve mas marcante! Um bem-haja a todos...

Pedra Filosofal

Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida,
que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.

terça-feira, 8 de abril de 2008

Viagem por grandes obras...

Num dos últimos textos que publiquei ia falar de grandes obras de escritores portugueses que tenho (re)vivido mas comecei pel"Os Lusíadas" e não mais avancei. Deve-se, sem dúvida, à sua infinita grandiosidade! O que vou cá destacar é uma colecção de romances que uma conhecida cadeia de supermercados decidiu re(apresentar) a preços convidativos e com uma imagem renovada. Adorei viajar com Almeida Garret pelo Tejo e pelo vale até Santarém (apenas discordo dele num apontamento final em que se manifesta em absoluto contra os caminhos de ferro que estavam a surgir na altura e apela à construção de estradas de pedra para cavalos e diligências percorrerem o país; discordo porque o comboio é o meu meio de locomoção favorito; uma viagem de comboio produz sensações incríveis, olhamos pela janela e assistimos a um filme de imagens animadas e coloridas que a natureza nos oferece, mas não precisa de ser muito rápido - o TGV dispensa-se - pois a viagem impõe-se descontraída e saboreada; quando se dá conta já estamos no destino e, por isso, a viagem não deixou de ser rápida como sempre se pretende; mas também acredito piamente que se o grande escritor vivesse hoje dispensaria muito bem as estradas e iria apreciar uma viagem sobre carris...). Viajar de carro até pode ser prático, viajar de avião até pode ser rápido, viajar de barco até pode ser delicado, viajar de bicicleta até pode ser saudável, viajar a pé até pode ser sabedoria mas viajar de comboio é isso tudo e mais, é magia...

Mas retomando as grandes obras, foi óptimo deambular com Eurico (guerreiro visigodo de Alexandre Herculano que se converte em Presbítero ao ver-lhe negado o amor a Hermengarda) de Toletum (Toledo) até aos cerros escalvados do Calpe (Gibraltar) de onde se avistavam bem perto os cimos das torres de Septum (Ceuta); dos campos de guerra da região de Híspalis (Sevilha, na altura dos romanos também conhecida por Rómula) até ao refúgio (Covadonga) das Astúrias onde não aceitou resignar-se. E que dizer do tresloucado Amor de Perdição de Simão por Teresa de Camilo Castelo Branco que os leva de Viseu até ao enclausuramento no Porto? E as Pupilas do Senhor Reitor (Margarida e Clara) de Júlio Dinis com as suas vivências cruzadas com Daniel no Alto Minho. E, obviamente, não poderia faltar o amor incestuoso de Carlos e Eduarda em "Os Maias" de Eça de Queirós, obra em que o escritor não poupa a decadência moral de então da 'alta' sociedade da capital e não só. Resta dizer que muito do que estes homens nos legaram através dos seus livros mantém-se actual, para o bem e para o mal...


Agora que este vício me invadiu, estou já a preparar a minha próxima viagem no tempo que pode ir desde A Cidade e as Serras ao encontro com A Morgadinha dos Canaviais e aproximar-me da actualidade com Mau Tempo no Canal, A Selva, Aparição, Memorial do Convento, A Sibila e tantos mais...

Aproveito para deixar aqui uma mensagem pelo seu aniversário à maior gladiadora da vida que alguma vez conheci, a minha mãe. Parabéns e muitos anos para me continuar a aturar!

quinta-feira, 20 de março de 2008

If I Saw You In Heaven?

Hoje começa a Primavera e invadem-nos novas sensações, coloridas pela variedade de essências que a Mãe Natureza nos presenteia. E como é bonita de viver a Primavera da Vida que há muito tempo canta o Rui Veloso, este ano com um sabor mais doce porque surge em plena época da Páscoa com os seus ovos, amêndoas e tradições típicas de cada região. Como é rico este país em diversidades de todos os quadrantes nas suas pequenas divisões geográficas, diversidades vistas pelos olhos de alguém cuja condição meio apátrida permite alguma isenção.

Mas este dia é especialmente marcante para mim porque o Quim comemorou exactamente há um quarto de século o seu 16º aniversário o que quer dizer que, se não lhe tivesse sido roubada a vida nesse mesmo ano, hoje estaríamos a comemorar as 41 Primaveras do meu irmão mais velho. Devo dizer que sou um quase agnóstico ou pelo menos algo céptico relativamente às religiões; até acredito que haja uma força exterior que nos transcende e não fico indiferente a manifestações de fé como já presenciei algumas vezes mas nada me toca mais que a companhia do meu irmão desde que partiu e que eu sinto a celebrar comigo todas as coisas boas que me acontecem e a apoiar-me nos momentos mais difíceis.
Quando partiste ouvi muita gente dizer que a nossa mãe tinha ficado sem o filho mais velho mas tinha ficado com um muito semelhante e cujo o rosto não te deixaria cair no esquecimento, o sétimo filho, eu... Esses comentários não me deixaram indiferente mas a herança que me deixaste de que mais me orgulho é a forma grata de olhar a vida, de a encarar com optimismo. Não duvido que a herdei de ti porque, apesar da minha tenra idade na altura, bem me lembro o que a tua forma de ser provocava em todos nós. Gostaria imenso de ver a expressão do teu rosto em tantos momentos... o que mais destaco é o nascimento da nossa sobrinha mais velha há exactamente 10 anos, a Rita. Talvez tenha nascido a 20 de Março para preencher de alguma forma o vazio que a tua partida nos deixou, talvez tenhas mexido os cordelinhos para que tal acontecesse de forma a não nos esquecermos de ti. Podes acreditar que nunca te esquecerei porque imagino-te através da energia que sinto caminhar ao meu lado e que não me abandona e que eu sei que és TU!

Obrigado irmão, um brinde a ti e à Rituxa, parabéns!
P.S.
Revelo-te agora que, desde que conheço a música "Tears in Heaven" de Eric Clapton, a associo sempre a ti:
Would you know my name
If I saw you in heaven?
Would it be the same
If I saw you in heaven?
Para quem leu este texto fica o endereço onde pode ver a interpretação da música: